Relembre as vezes que o Sambódromo da Anhembi virou um grande livro, homenageando autores e obras clássicas brasileiras

 Relembre as vezes que o Sambódromo da Anhembi virou um grande livro, homenageando autores e obras clássicas brasileiras

Com o grande desfile das escolas de samba começando nesta sexta (13), confira alguns enredos de escola de samba de São Paulo que levaram a literatura para a linguagem carnavalesca - inclusive algumas campeãs.


São Paulo, fevereiro de 2026 – Começa nesta sexta (13) os desfiles das escolas de samba de São Paulo, mirando as atenções e os holofotes mais uma vez no Sambódromo da Anhembi. Acima das alegorias, estruturas dos carros e os figurinos exuberantes, o Carnaval chama a atenção pelos temas, que conversam com o público e servem para informar, manifestar e representar ideias, povos e legados. As escolas de samba de São Paulo têm levado à avenida não apenas personagens históricos e temas sociais, mas também grandes nomes da literatura brasileira. Ao transformar trajetórias e obras em samba-enredo, as agremiações reafirmam o Carnaval como uma das expressões de difusão cultural mais relevantes do país. Vamos lembrar de algumas delas?
 

Em 1988, a Vai-Vai apresentou “Amado Jorge, a História de Uma Raça Brasileira”, exaltando Jorge Amado, um dos escritores brasileiros mais adaptados para o cinema e a televisão. O desfile celebrou a brasilidade presente em obras como “Gabriela”, cravo e canela” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, que ajudaram a consolidar uma imagem internacional do país. O samba enredo foi campeão da disputa de 88, e um dos motivos para a escolha da homenagem ao escritor foi pela efeméride do centenário da abolição da escravatura. A agremiação utilizou a obra do escritor baiano Jorge Amado, em especial “Tenda dos Milagres”, para exaltar a miscigenação e a cultura negra brasileira.



Outra campeã retratando a vida de um autor em seu desfile no Carnaval paulistano foi a Águia de Ouro, em 2020, abordando a vida e a importância do educador Paulo Freire a partir do enredo “O Poder do Saber – Se saber é poder… quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Foi o primeiro título da Água do Ouro. Com carros alegóricos estampando livros à frente e com a frase "Não se pode falar de educação sem amor. Viva Paulo Freire!", o desfile percorreu a história da evolução do conhecimento humano, refletindo sobre seus usos para a evolução ou destruição da humanidade, e a importância do educador neste meio, sobretudo o seu método de ensino que ensinou mais de 300 adultos a ler, escrever e pensar de forma crítica assuntos como os direitos trabalhistas e o direito ao voto em apenas 40 horas, ganhando popularidade e respeito mundo afora – Paulo Freire é o acadêmico brasileiro mais citado e o professor mais traduzido para outras línguas.


Mais recentemente, no Carnaval de 2024, a Mocidade Alegre ganhou o seu segundo título consecutivo relembrando a época modernista com “O Turista Aprendiz”, inspirado na obra de Mário de Andrade, pelo samba-enredo “Brasiléia Desvairada: A busca de Mário de Andrade por um país”. O desfile dialogou com as viagens etnográficas do escritor e sua busca por compreender a identidade cultural brasileira, conectando modernismo, cultura popular e o próprio espírito investigativo do samba. O samba-enredo da Mocidade, composto por Biro Biro, Turko, Gui Cruz, Rafa Do Cavaco, Minuetto, João Osasco, Imperial, Maradona, Portuga, Fábio Souza, Daniel Katar e Vitor Gabriel, teve o ator Pascoal da Conceição interpretando o mais importante poeta brasileiro de malas prontas para desbravar em busca de entender as milhares de culturas e tradições ao redor do Brasil, que o fez caracterizar como “diferentes Brasis”. Assim como a Vai-Vai, a escolha do tema partiu pela data redonda de 100 anos desde a famosa carta assinada por Mário destinada à Carlos Drummond de Andrade, em 1924, que mais tarde impulsionou o autor de “Macunaíma” a girar pelo país. Tal qual como descrito por Mário de Andrade no livro “Turista Aprendiz”, a escola de samba, em seus carros alegóricos, trouxeram a descoberta de Mário por manifestações artísticas, como a arte barroca de Minas Gerais, o carimbó paraense da ilha de Marajó, o maracatu e o frevo pernambucanos e a cerimônia do catimbó da cultura indígena.





Já em 2008, a Mancha Verde levou à avenida uma homenagem a Ariano Suassuna, criador do Movimento Armorial (iniciativa que buscava criar uma cultura erudita a partir da valorização da cultura sertaneja , unindo música, artes plásticas, teatro e literatura) e autor de clássicos como “O Auto da Compadecida”. Na ocasião, a Mancha Verde foi além, reverenciando todas as obras de Ariano Suassuna, no bom estilo carnavalesco, a cultura nordestina e as matrizes populares que sempre foram pautas das criações de Ariano. O nome do samba-enredo foi “És Imortal! Ariano Suassuna: Sua Vida, Sua Obra, Patrimônio Cultural!”, e surgiu espontaneamente a partir de uma entrevista que o autor deu ao Programa Jô Soares, pelo presidente da agremiação na época, Paulinho Serdan.
 

Ariano Suassuna também já foi idolatrado pela escola de samba Pérola Negra, de Vila Madalena, em 2013, ganhando a competição que lhes deu acesso ao grupo especial. A escola narrou o Auto da Compadecida no samba-enredo “O Espetáculo Vai Começar, Pérola Negra Apresenta o Auto da Compadecida”, escrita pelo carnavalesco André Machado, destacando a fácil leitura da obra, sua riqueza textual e descritiva e a grande identificação popular que o título representa na cultura brasileira.
 


A literatura em quadrinho também ganhou seu destaque no Sambódromo do Anhembi. Em 2003, a Nenê de Vila Matilde levou para a avenida o enredo “É Melhor Ler – O Mundo Colorido de um Maluco Genial”, em homenagem a Ziraldo. Com 24 alas, o desfile apresentou personagens como Menino Maluquinho e A Turma do Pererê, além de referências ao jornal O Pasquim, fundado pelo cartunista durante a ditadura. A comissão levou mais de 300 crianças que participaram do cortejo, reforçando o incentivo à leitura e o grande poder social que os quadrinhos levam como porta de entrada à alfabetização e ao gosto literário. O próprio Ziraldo desfilou ao lado do filho Antonio Pinto, inspiração para o Menino Maluquinho, e de sua neta, Nina Amarante, caracterizada de Menina Nina.
 

Já a Unidos do Peruche celebrou Maurício de Sousa com o enredo “Com Maurício de Sousa, a Peruche abre alas, abre livros, abre mentes e faz sonhar”, em 2007, apostando em um desfile lúdico que destacou a força dos quadrinhos brasileiros e seus personagens inesquecíveis. Maurício também esteve no carro alegórico, bem como seus personagens amplamente conhecidos e o famoso Bairro do Limoeiro.


Já a Colorado do Brás reverenciou, em 2022, a escritora Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras do Brasil e considerada uma das mais importantes do país, com “Carolina – A Cinderela Negra do Canindé”. O samba-enredo perpetuou a superação de Carolina, sua trajetória como moradora da favela do Canindé e seu reconhecimento literário internacional com o “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado em 1960, traduzido para 16 idiomas e com mais de 3 milhões de cópias vendidas – e que ganha novas homenagens pela Unidos da Tijuca este ano. Carolina Maria de Jesus é uma mulher preta mineira que veio muito cedo para São Paulo e morou na favela do Canindé, comunidade próxima à escola de samba. Na cidade, a autora passou por miséria, trabalhando como catadora de papelão, retratado pelo Colorado do Brás com um carro alegórico composto por mais de duas toneladas do material. A filha da escritora, Vera Eunice, participou do desfile ao lado do carnavalesco autor da homenagem, André Machado.


 

Desfiles das escolas de samba de São Paulo de 2026 homenageiam Chico Xavier, Paulo César Pinheiro e Sueli Carneiro


Neste Carnaval de São Paulo de 2026, no Sambódromo da Anhembi, duas escolas paulistanas já anunciaram homenagens que dialogam diretamente com a literatura e a palavra escrita.
 

Tom Maior, campeã do Grupo de Acesso de 2025, levará à avenida um enredo dedicado a Chico Xavier, intitulado “Chico Xavier: Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”, um dos autores mais lidos da história do Brasil, tendo publicado mais de 450 obras psicografadas, com livros que atravessam gêneros, milhões de exemplares vendidos e temas centrados em fé, esperança e solidariedade.
 

Enquanto a Estrela do Terceiro Milênio homenageará Paulo César Pinheiro, um dos maiores letristas da música brasileira. Parceiro de nomes como Baden Powell, João Nogueira e Tom Jobim, Paulo César é o nome por trás dos hits atemporais “'Espelho”, “Matita Perê” e “Tô Voltando”. Além da produção musical, é autor de livros de poesia e pesquisa sobre a cultura popular, especialmente o samba.
 

Por fim, a outra escola de samba recém ingressada ao Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, a Mocidade Unida da Mooca (MUM), estreante, apresentará o enredo “GÈLÈDÉS – Agbara Obinrin”, celebrando o Geledés – Instituto da Mulher Negra, fundado pela filósofa, escritora e ativista Sueli Carneiro, destacando a força do feminismo negro e os saberes das mulheres negras na construção do Brasil contemporâneo. No mesmo enredo, a escola também homenageará Conceição Evaristo, uma das mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, autora do conceito de “escrevivência”, que articula memória, literatura e vivência da população negra.
 

“O Carnaval é uma verdadeira aula pública de história e literatura. Os desfiles ampliam o alcance dessas obras, despertam curiosidade sobre autores consagrados e aproximam o grande público de referências que, muitas vezes, estão presentes nos currículos escolares, mas ganham nova vida com essa festa.”, destaca o Secretário de Cultura e Economia Criativa, Totó Parente.


 

Aprofunde sobre os autores homenageados no acervo físico e online das bibliotecas
 

A união entre Carnaval e Literatura nunca esteve tão presente, embora gêneros literários e contos internacionais também tenham seu espaço dentro da avenida desde praticamente o seu início de exercício na década de 30. Para caso queira se aprofundar nos legados e obras dos autores listados, o acervo físico das bibliotecas públicas municipais e dos pontos e bosques de leitura, além do catálogo online de 17 mil títulos da BiblioSP Digital são porta-bandeira e o mestre-sala do desfile.
 

Nos acervos físicos, por exemplo, o público pode ver partituras, gravações e histórias das canções de Paulo César Pinheiro e escolher, à vontade, entre os mais de 800 livros assinados por Chico Xavier. Há também as gibitecas Henfil, no CCSP, e a dentro da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato para conferir milhares de títulos, sendo alguns deles históricos, de Ziraldo e Maurício de Sousa. Consulte online os acervos físicos dos mais de 140 espaços de leitura do Sistema Municipal de Bibliotecas clicando aqui.
 

Pelo BiblioSP Digital, o leitor cadastrado pode ler clássicos e diversos outros títulos de Mário de AndradeJorge AmadoPaulo Freire e Ariano Suassuna na palma da mão, a qualquer lugar e hora. Conceição Evaristo, Sueli Carneiro e Carolina Maria de Jesus também contém suas obras na versão e-book. Veja como se cadastrar na BiblioSP Digital aqui.


 

Sobre a Coordenação do Sistema Municipal de Bibliotecas (CSMB)

A Coordenação do Sistema Municipal de Bibliotecas (CSMB) é um núcleo filiado à Secretaria de Cultura e Economia Criativa da cidade de São Paulo, responsável direta pela administração de 84 equipamentos culturais ao redor da cidade, incluindo 51 bibliotecas de bairro - além da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato e as bibliotecas Jayme Cortez, Paulo Setúbal, Paulo Duarte, Prefeito Prestes Maia e José Paulo Paes dentro dos Centros Culturais da Juventude e Penha, respectivamente - e 30 Serviços de Extensão estabelecidas em praças e parques por meio dos Pontos e Bosques de Leitura. Tendo origem desde a década de 30 como Divisão de Bibliotecas do Departamento de Cultura e reajustada como CSMB desde 2005, tem como objetivo integrar todas as bibliotecas públicas municipais e tornar mais eficiente o desenvolvimento de suas políticas, serviços e estrutura informacional. A fim de promover iniciativas que atendam às necessidades de prover amplo acesso à informação, cultura, leitura e produção de conhecimento, a Coordenação do Sistema Municipal de Bibliotecas promove em seus espaços cursos, oficinas e atrações artísticas mensais e gratuitas para todos os públicos - por meio de programas como “Biblioteca Viva”, “Feira de Trocas de Livros”, “Pegue, Leve e Leia”, “Bibliotecas Temáticas” - e o primeiro serviço de streaming gratuito de leitura - o BiblioSP, que conta com mais de 17 mil livros para leitura online e download.


 

Sobre a Secretaria de Cultura e Economia Criativa

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMC) de São Paulo, fundada em 1935 como Departamento de Cultura e Recreação, promove a cultura e impulsiona a economia criativa da cidade. Com mais de 90 anos de atuação, valoriza a diversidade cultural, preserva patrimônios e forma profissionais para a indústria criativa. Com uma rede abrangente, a SMC administra 13 Centros Culturais, 7 Teatros Municipais, 20 Casas de Cultura, além da Casa de Cultura Cidade Ademar, que será inaugurada em 2025, 2 museus (sendo o Museu da Cidade de São Paulo - composto de 13 unidades - e o Museu das Culturas Brasileiras em fase de obras), 54 Bibliotecas de Bairro, 15 Pontos de Leitura e 15 Bosques de Leitura, 6 EMIAs (Escolas Municipais de Iniciação Artística) e 3 unidades da Rede Daora - Estúdios Criativos das Juventudes. A SMC ainda atende 104 equipamentos de cultura e CEUs por meio do PIAPI (Programa de Iniciação Artística para a Primeira Infância), PIÁ (Programa de Iniciação Artística) e Programa Vocacional.

 



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