São Paulo completa 472 anos desafiada a crescer sem perder a humanidade
São Paulo celebrou seus 472 anos, na manhã do aniversário, reafirmando — ao menos simbolicamente — a vocação para o encontro. A Catedral da Sé, marco fundacional da cidade, reuniu autoridades civis, militares, políticas e religiosas na missa solene celebrada por Dom Odilo Scherer. Entre os presentes, o prefeito da capital, Ricardo Nunes, o governador do Estado Tarcísio de Freitas e representantes de diferentes tradições de fé. No meio deles, Pai Denisson D’Angiles e a Doce Mãe Kelly D’Angiles, sacerdotes da Umbanda, dirigentes do Instituto CEU Estrela Guia, ocupando um espaço que carrega mais significado do que protocolo.
A cena, em si, já dizia muito. Um rito católico que se abre à diversidade religiosa numa cidade construída por camadas sucessivas de povos, crenças e contradições. Pai Denisson acompanhou a celebração com atenção discreta, consciente do peso histórico daquele momento. “São Paulo nasceu do encontro — muitas vezes doloroso — entre culturas distintas. Honrar essa cidade é reafirmar o compromisso com a convivência, o respeito e a dignidade humana”, afirmou.
A não referência ao cacique Tibiriçá, figura central na mediação entre indígenas e jesuítas nos primórdios da cidade, ecoa como lembrete incômodo e necessário: não há identidade sem memória, nem futuro possível quando o passado é apagado ou romantizado.
À noite, o compromisso com a memória ganhou contornos ainda mais densos. Pai Denisson participou do ato em memória ao Holocausto, realizado na Congregação Israelita Paulista (CIP), que contou novamente com a presença do governador do Estado, lideranças religiosas de diferentes matrizes e sobreviventes do genocídio que marcou o século 20. A presença desses sobreviventes impôs silêncio e escuta — dois gestos cada vez mais raros no debate público.
Para Pai Denisson, lembrar é um ato político e humanitário. “O Holocausto não é apenas uma tragédia do povo judeu; é uma ferida da humanidade. Manter viva essa memória é a única forma de impedir que o ódio, a segregação e a violência voltem a se normalizar”, disse. “Quando a memória falha, o horror encontra espaço para se repetir.”
O eixo que conectou a manhã na Sé e a noite na CIP foi o dos Direitos Humanos — não como bandeira ideológica, mas como fundamento civilizatório. Num mundo atravessado por guerras, intolerâncias e desigualdades extremas, o discurso da paz ganha materialidade quando associado ao combate à fome e à pobreza, temas recorrentes na atuação social do sacerdote.
“Não existe paz verdadeira onde há fome, miséria e exclusão. Falar de direitos humanos é falar de comida no prato, de teto, de respeito e de vida”, resumiu Pai Denisson.
Entre o altar e a memória, São Paulo celebrou seu aniversário lembrando que cidades não se constroem apenas com concreto e cifras, mas com escolhas éticas. E que esquecer — seja a dor dos povos originários, seja o horror do Holocausto — nunca foi, nem nunca será, uma opção.

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