Entre o silêncio e o axé, a Paulista resolveu começar 2026 diferente
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| Para quem acha que espiritualidade é assunto privado, a noite de ontem deixou um recado para todos: quando o silêncio encontra o axé, a cidade muda de frequência. |
A Bênção de Ano Novo, ontem 14/01, reuniu Monja Coen, Pai Denisson D’Angiles e Mãe Kelly D’Angiles numa cena que São Paulo ainda não naturalizou: o Zen e a Umbanda dividindo o mesmo espaço unindo forças sem perderem a essência e suas origens.
O que se via na entrada não era espetáculo, mas expectativa. Pessoas de todas as idades aguardavam em silêncio atento, como quem não busca entretenimento, mas algum tipo de resposta para o ano que acabara de nascer.
Monja Coen conduziu a cerimônia com o rigor sereno de quem já atravessou muitas viradas de calendário. Falou de diálogo interreligioso sem usar a palavra como slogan. Falou da necessidade de se reformar continuamente — “todo dia a gente começa de novo”, resumiu. Entoou a bênção em japonês, pediu silêncio, ensinou o valor do zazen, aquele sentar-se que parece simples, mas que, na prática, desmonta qualquer arrogância espiritual. O teatro inteiro, por alguns minutos, respirou no mesmo ritmo.
Em meio à uma chuva intensa que antecipou a palestra, a Monja brincou: “Estou feliz que o teatro está cheio, pensei que não viesse ninguém por causa da chuva”, arrancando gargalhadas da plateia.
Quando o Grande Livro Dourado da Sabedoria Perfeita foi aberto, não houve efeito especial. Houve olhos marejados. O tipo de cena que não rende boa foto, mas rende memória.
Chamou para o palco seus discípulos juntamente com o casal de Umbandistas.
Mãe Kelly puxou o encontro de volta para o chão. Agradeceu pela oportunidade e lembrou que espiritualidade que não combate a fome vira discurso oco. Falou de respeito mútuo como exercício cotidiano — não como tolerância condescendente, mas como prática política da vida comum. O público, que até então estava contemplativo, começou a balançar a cabeça em concordância. Era a prática da boa-fé.
Pai Denisson entrou em seguida com a vibração que o acompanha. Falou dos Exus como força de movimento e proteção, entoou um ponto cantado que rompeu de vez a fronteira entre palco e plateia e, de quebra, lançou uma provocação: por que a Paulista já foi tomada por evangélicos e católicos em bênçãos públicas, mas ainda estranha quando a Umbanda e o Zen propõem o mesmo gesto? “Ano que vem a gente vai fazer isso lá fora, na virada do ano com a concordância da Monja Coen e da Mãe Kelly. É a democracia e liberdade religiosa em ação.”, disse, arrancando sorrisos e aplausos que não soaram protocolados.
Do lado de fora, a Avenida Paulista seguia em sua coreografia habitual de buzinas e pressa. Mas, ali dentro, por quase duas horas, São Paulo ensaiou outra coisa: menos barulho, mais escuta; menos disputa, mais convergência.
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