[MERCADO] Recuo em políticas de diversidade pode ampliar desigualdades raciais no mercado de trabalho, alerta especialista
Recuo em políticas de diversidade pode ampliar desigualdades raciais no mercado de trabalho, alerta especialista
Para Suzana Coelho, fundadora do Instituto Afetto e atuante em direitos humanos, construção de ambientes inclusivos passa por oportunidades de crescimento e participação
Embora algumas empresas tenham reduzido ou revisto programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), essas políticas continuam sendo indispensáveis para a maioria das organizações. Segundo os dados recentes do relatório ‘Women in the Workplace’, da McKinsey & Company, cerca de 67% das organizações afirmam que a diversidade segue como alta prioridade e 84% mantém o compromisso com a inclusão.
Ao mesmo tempo em que o compromisso se mantém alto, cerca de duas em cada dez empresas reduziram treinamentos sobre vieses inconscientes e investimentos voltados à promoção da diversidade. Os reflexos desse cenário já podem ser observados entre grandes empresas globais. Segundo o levantamento ‘U.S. Companies Cut Diversity Efforts as Challenges Mount’, da Reuters, companhias como Meta, Amazon, Walmart, McDonald's e Ford revisaram ou reformularam programas de diversidade diante de mudanças regulatórias e pressões políticas.
Mais do que uma resposta às mudanças no ambiente corporativo, o momento representa uma oportunidade para as empresas refletirem sobre o papel da inclusão dentro do planejamento estratégico. Segundo Suzana Coelho, fundadora do Instituto Afetto e especialista em diversidade, direitos humanos e desenvolvimento organizacional, organizações que associam diversidade apenas a campanhas ou compromissos públicos tendem a enfraquecer essas iniciativas diante de mudanças externas, enquanto aquelas que integram esses princípios à cultura organizacional constroem ambientes mais resilientes e preparados para os desafios do mercado.
"Existe uma compreensão cada vez maior de que organizações mais preparadas para lidar com essas questões também estão mais preparadas para gerar valor e construir relações mais sólidas com seus públicos. Com isso, a inclusão deixa de ser uma pauta de imagem e passa a ser uma estratégia capaz de reduzir conflitos e gerar valor para o negócio. É preciso também distinguir dois conceitos frequentemente tratados como sinônimos: acessibilidade e inclusão. Acessibilidade refere-se às condições formais de acesso, como contratação, cotas, adequação de espaços e processos. Inclusão, por sua vez, diz respeito à qualidade da permanência: participação efetiva nas decisões, equidade nas trajetórias de desenvolvimento e pertencimento à cultura organizacional.", afirma Suzana.
Na avaliação de Suzana Coelho, o relatório da McKinsey revela que a diversidade e a inclusão ainda enfrentam um desafio de consolidação dentro das estruturas corporativas, especialmente quando precisa competir com outras prioridades de curto prazo.
"Nos últimos anos, diversidade, inclusão e direitos humanos passaram a ocupar mais espaço no debate público e institucional, mas ainda existe um desafio importante relacionado à implementação efetiva dessas iniciativas nos diferentes contextos sociais e organizacionais. Trata-se de um desafio que exige menos culpabilização e mais compromisso coletivo com a construção de soluções capazes de promover transformações efetivas e duradouras", afirma.
À frente do Instituto Afetto, Suzana desenvolve projetos voltados às necessidades de cada organização e de seus públicos. No iFood, por exemplo, os projetos envolveram iniciativas voltadas ao fortalecimento de redes de apoio, inclusão produtiva e desenvolvimento humano de entregadores(as) parceiros(as). Já em organizações como a VINCI Airports, o foco estava na construção de estratégias relacionadas a direitos humanos, diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade. Sua atuação demonstra que organizações que consolidam esses princípios em seus processos internos tendem a fortalecer o engajamento das equipes, reduzir conflitos e construir relações mais sustentáveis com colaboradores, clientes e investidores.
"Cada organização enfrenta desafios diferentes e, por isso, as soluções também precisam ser diferentes. O que existe em comum é a necessidade de construir iniciativas que dialoguem com a realidade das pessoas. O cenário atual exige que as empresas façam uma escolha: tratar diversidade como uma pauta sujeita às mudanças de contexto ou reconhecê-la como um ativo estratégico. As organizações que conseguirem integrar inclusão e direitos humanos ao seu modelo de gestão estarão mais preparadas para enfrentar desafios complexos e construir negócios mais competitivos e sustentáveis no longo prazo", conclui a especialista.
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