Afeto, Memória e Protagonismo: Documentário inédito celebra o legado de Chica Xavier no Festival do Rio

 Afeto, Memória e Protagonismo: Documentário inédito celebra o legado de Chica Xavier no Festival do Rio

Dirigido pelo cineasta Clementino Junior, “Amor e Fé: Chica Xavier” revela as múltiplas camadas de uma das maiores damas da dramaturgia brasileira, unindo sua trajetória artística, espiritualidade e ativismo na luta antirracista



Ícone do teatro, do cinema e da televisão brasileira, Francisca Xavier Queiroz de Jesus, a eterna Chica Xavier (1932-2020), terá sua história resgatada e homenageada com o longa-metragem documental “Amor e Fé: Chica Xavier”. A produção, que é uma das selecionadas para integrar a programação oficial do Festival do Rio 2026, tem direção de seu filho, o cineasta e educador Clementino Junior, roteiro de Bruna Christine e produção de Gregory Baltz. O longa apresenta uma narrativa profundamente afetiva e politizada sobre a mulher baiana de Oyá que deixou Salvador na década de 1950 rumo ao Rio de Janeiro e se consolidou como uma referência dramática e símbolo de representatividade para várias gerações de artistas negros.


Além de revisitar seus mais de 60 anos de união com o também ator Clementino Kelé, -– seu companheiro na vida e na arte que se somam mais de 70 anos —, sua marcante trajetória na TV, cinema e teatro, o filme sobre a atriz vai além dos palcos e estúdios. Expõe os bastidores da atuação de Chica no serviço público, sua religiosidade e seu papel marcante nos movimentos sociais, destacando também sua participação na Fundação Palmares na articulação das bases para o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas do país.


Tratado pelo próprio realizador como uma declaração de afeto e reverência, “Amor e Fé: Chica Xavier”, em 88 minutos de duração busca lançar luz sobre o protagonismo histórico da artista, desmistificando velhos estigmas do audiovisual e celebrando o legado de uma das maiores pioneiras das artes cênicas no Brasil.


Das Raízes no Axé à Humanização na Teledramaturgia

Nascida na Roça de Mãe Sabina, no bairro da Barra e criada na Roça da Piedade, ambas em Salvador — onde conheceria ali seu grande amor, Clementino Kelé —,  Chica teve sua formação marcada por lavadeiras, trabalhadoras domésticas e mães de santo, cultivando uma devoção fluida que unia as divindades do Axé e os santos católicos. Embora tenha começado sua vivência espiritual no Candomblé baiano, foi no Rio de Janeiro que sua vida religiosa foi vinculada à Umbanda.

Essas vivências moldaram a altivez com que Chica enfrentou os estigmas da profissão. Em uma época na qual atrizes negras recebiam papéis secundários e sem histórico próprio, Chica imprimia tal dignidade em cena que inspirava autores a ampliarem a presença de suas personagens nas tramas, rompendo com o estereótipo da figura debochada ou do "como se fosse da família".

"A maioria das personagens de Chica Xavier foram mulheres do povo, trabalhadoras domésticas, escravizadas da Casa-Grande, donas de casa de periferia... Sua altivez e presença de cena induziram os autores à ampliação da existência dessas personagens na trama, o que deixou para o público uma imagem diferenciada nesse tipo de representação", revela o diretor Clementino Junior.

O cineasta também lembra a postura firme da mãe contra as disparidades do meio artístico, denunciando a desigualdade nos cachês, a invisibilidade e o racismo publicitário:

"Ela disse uma vez que fez tantas empregadas, mas nunca os produtos de limpeza ou supermercados utilizavam a popularidade de suas personagens para ações de merchandising. Isso só começou a mudar depois de 2010, época em que ela foi parando de atuar."

Chica Xavier e Clementino Kelé chegaram ao Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1953, Dia de Reis. Ela em busca do sonho de estudar teatro, ele decidiu acompanhar o seu amor na aventura pela realização desse sonho. Chica teve sua formação teatral como ouvinte no curso do Teatro Duse de Paschoal Carlos Magno. Chica e Clementino acabaram seguindo juntos o mesmo caminho da arte, os dois atuaram na histórica peça Orfeu da Conceição (1956), escrita por Vinicius de Moraes, dirigida por Léo Jusi, juntamente com o elenco do Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado por Abdias Nascimento. 

Com uma carreira consolidada na Televisão e no cinema, participou de produções memoráveis como as novelas Dancin’ Days (1978), Marrom Glacê (1979), Renascer (1993), Pátria Minha (1994), Força de um Desejo (1999) e Esperança (2002). Das minisséries Tenda dos Milagres (1985) e O Pagador de Promessas (1988). No cinema, fez parte de filmes de destaque nacional, como O Assalto ao Trem Pagador (1962), A Deusa Negra (1978), Lerfá Mú (1979), A Partilha (2001) e Nosso Lar (2010). Só na TV Globo, onde construiu a maior parte da sua carreira, a atriz atuou em mais de 20 novelas e 11 minisséries. Participou ainda de "Os Imigrantes” (1981)  na TV Bandeirantes, um dos maiores sucessos fora da emissora carioca.


Ativismo Político e Maternidade Universal

Longe dos holofotes, o ativismo de Chica se manifestava de forma prática e apartidária. Como conselheira da Fundação Cultural Palmares na transição dos governos FHC e Lula, ela foi uma das incentivadoras nas articulações que culminaram na promulgação da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas.

Com sensibilidade narrativa, o documentário evita a armadilha do elogio superficial para resgatar memórias inéditas e nuances do convívio familiar, revelando a força de uma presença capaz de transformar qualquer um ao seu redor.


"Conhecer ou conversar com Chica Xavier nunca deixou as pessoas da mesma maneira. Sabíamos do risco deste filme virar um documentário 'chapa branca' por ser uma figura de unanimidade, mas os relatos trazem muitas dimensões de uma mulher preta baiana com quem qualquer pessoa se identifica. Não é à toa que sua biografia se intitula 'Mãe do Brasil' — por Teresa Montero em 2013 — apresenta essa maternidade que vem de um sentimento que só a vivência e a existência de Chica explicam", pontua o diretor, Clementino.


A roteirista Bruna Christine fala da honra de fazer parte do projeto, de conhecer de maneira aprofundada sobre a vida de alguém como Chica, “que é uma referência, uma mestra”. “Contar a história de Chica Xavier é uma honra e a continuidade do legado de uma mulher negra fiel às suas raízes. O processo de criação do roteiro foi envolto pelo próprio mistério e cuidado de Chica, que parecia ter me escolhido para essa missão. Fiquei tocada pela atuação política dela e pela dimensão da sua luta antirracista na importância para a educação. Com o sonho de ser atriz, ela  criou bases necessárias para viver com dignidade em um mundo com pouquíssimas oportunidades para pessoas pretas na arte, ainda mais para as mulheres”. Diz Bruna.


O produtor, Gregory Baltz, relata o quão instigante foi estar no projeto sobre Chica e ter a oportunidade de mergulhar no processo para a produção ao ter contato com a família, com os amigos e compreender o quão é importante celebrar o legado da atriz que inspirava afeto:

“Percebi como o núcleo familiar da Chica emanava aquela energia de união, e como essa família se transformava em algo mais amplo. Ao longo das entrevistas, fui vendo o quanto ela era amada, não só pela família, mas por amigos e companheiros de trabalho. E o que mais me marcou foi entender que, de alguma forma, a religião dela era a própria maneira amorosa como se relacionava com o próximo”, descreve. 


Chica Xavier - Breve Biografia 

Trajetória e Origens

Nascida em Salvador, Bahia, no dia 22 de janeiro de 1932, mudou-se para o Rio de Janeiro na década de 1950, onde iniciou sua formação teatral como ouvinte no curso do Teatro Duse de Paschoal Carlos Magno. Estreou nos palcos em 1956 na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, com direção do Léo Jusi, juntamente com o elenco do Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado por Abdias Nascimento. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, tornou-se uma das presenças mais marcantes e respeitadas da televisão brasileira, acumulando dezenas de papéis em telenovelas, minisséries e produções cinematográficas.


Principais Trabalhos e Contribuições Para as Artes e como Líder Religiosa

Televisão: Integrou o elenco de produções marcantes da TV Globo, como ‘Saramandaia’ (1976), ‘Tenda dos Milagres’ (1985), ‘Renascer’ (1993), ‘Pátria Minha’ (1994), ‘Força de um Desejo’ (1999) e ‘Esperança’ (2002). No Cinema atuou nos filmes ‘O Assalto ao Trem Pagador’ (1962). 

Como liderança religiosa ( com suas bases de conhecimento no Candomblé que conheceu em Salvador), foi uma expressiva liderança espiritual da Umbanda no Rio de Janeiro onde fundou e dirigiu o Terreiro Irmandade do Cercado de Boiadeiro, no bairro de Sepetiba, na Região Oeste do Rio. 


Chica Xavier foi casada por mais de 60 anos com o também ator Clementino Kelé. Ela faleceu em 8 de agosto de 2020, aos 88 anos, deixando um legado fundamental para a representatividade negra e para a preservação das tradições afro-brasileiras na arte e na religiosidade.


Quem é Clementino Junior

Clementino Junior é cineasta, educador audiovisual e ambiental, doutor em educação, professor do departamento de design da PUC-RIO, pesquisador do GEASur/UNIRIO, curador, artista visual e fundador do CAN - Cineclube Atlântico Negro.

Filmografia:

Sillis (2000); Sequestro de Bellini (2003); O Artilheiro (2004); Bolero de Pastel (2005); Histórias de Pescador (2006); 7KPTAIS (2007); Sua Majestade, O Delegado! (2007); Folia de Adão e Eva (2009); Nosso Lar (2010); Ojú Onà (2011); Anjo de Chocolate (2013); Jurema (2014); (in)cômodos (2014); feli(Z)cidade (2015); Na Rua (2015); Tião (2016); Anamnese (2016); 6do2 (2017); A Fé (2017); O Jogo (2017); Mística (2018); Abrindo o Coração (2018); João (2018); Baía (2020); A Padroeira (2020); Curai-vos (2020); 1º Turno (2021); Trem do Soul (2021); Romão (2022); Quando Bento Era São (2023); Chache Lavi (2024); Tibério (2024); Punhal (2025); Fogo Nos Macacos (2025); Quanto VALE 1 Década? (2025); Amor e Fé - Chica Xavier (2026); Branco (2027).


SERVIÇO

Filme: Amor e Fé: Chica Xavier

Gênero: Documentário

Duração: 88 minutos

Direção: Clementino Junior

Roteiro: Bruna Christine

Exibição: Festival do Rio

Datas/ Horário e Salas:

07/10 - Estação Claro Gávea 03 - às 18:15

08/10 - Cine Santa Teresa - às 16h

09/10 - Estação Claro rio 03 - às 16:15

Patrocínio e Apoio 

Projeto patrocinado pelo Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e

Economia Criativa do Rio de Janeiro, através da Lei Paulo Gustavo. 

Comentários