Cerca de 20% dos brasileiros temem a reprodução de preconceitos por algoritmos; IA amplia debate sobre padronização estética
Cerca de 20% dos brasileiros temem a reprodução de preconceitos por algoritmos; IA amplia debate sobre padronização estética
À medida que o mercado recorre em massa às ferramentas e comandos automatizados, o receio do ‘racismo algoritmo’ cresce entre os usuários. A consultora de imagem plural Cáren Cruz explica como autenticidade e repertório tornam-se diferenciais estratégicos diante dos desafios.
O avanço acelerado da inteligência artificial e o imaginário das redes sociais estão redefinindo as dinâmicas de construção de imagem. Crescendo em um ecossistema de filtros estéticos, avatares e algoritmos, as gerações Z e Alpha têm transformado os “padrões de beleza” em moldes cada vez mais artificiais.
Se uma parte dos millennials usavam a internet como ferramenta e as redes como espaço social, os mais jovens construíram a ‘autoimagem’ em um ambiente híbrido entre o físico, digital e o sintético – a partir de realidades artificiais. De acordo com a pesquisa “Consumo e uso da Inteligência Artificial no Brasil”, publicada pelo Instituto Datafolha, essa tecnologia já está enraizada entre as novas gerações: cerca de 95% do público entre 16 a 24 anos utilizam IA’s em tarefas cotidianas.
Essa imersão no ambiente digital também transforma a percepção de identidade, e a IA generativa tem ampliado o processo ao permitir a criação de diferentes versões do indivíduo. No entanto, a ‘superexposição' traz reflexos na autoestima. Para se ter uma noção, a pesquisa do Datafolha mostra que 73% das pessoas concordam que o uso de filtros e imagens alteradas por IA é ruim para a saúde mental.
Segundo a comunicóloga, consultora de imagem plural e CEO da Pittaco Consultoria, Cáren Cruz, a popularização dessas ferramentas reflete escolhas sociais profundas sobre padrões de beleza. A especialista analisa que, longe de serem neutros, os filtros estéticos e geradores de imagem costumam modificar o formato do rosto, clarear tons de pele e alisar cabelos, reproduzindo vieses históricos eurocêntricos que afetam diretamente a autoestima de pessoas negras e a diversidade no ecossistema digital.
"O problema começa quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta de experimentação e se transforma em uma referência de superioridade. Durante muito tempo, os traços negros, os cabelos crespos, os diferentes tons de pele e outras características foram interpretados a partir de referências eurocentradas. Se a inteligência artificial for treinada a partir de bancos de imagens limitados ou de conteúdos que já carregam esses padrões, ela pode reproduzir e ampliar os mesmos preconceitos em uma velocidade muito maior. Ela poderá apresentar essas referências como se fossem universais. Mas elas não são universais. Elas representam determinados contextos históricos, culturais e econômicos", afirma.
O estudo do Datafolha revela ainda uma preocupação crescente com a capacidade dos algoritmos em reproduzir ou ampliar preconceitos: 20% dos entrevistados apontam os riscos relacionados à perpetuação de vieses por essas tecnologias. A adesão às mesmas ferramentas e recursos digitais também acende um alerta no mercado sobre a padronização estética, com marcas, profissionais e influenciadores sujeitos a reproduzir referências visuais cada vez mais homogêneas.
"Quando todo mundo utiliza os mesmos comandos e as mesmas referências, existe o risco de que a comunicação se torne tecnicamente eficiente, mas muito semelhante. É nesse cenário que a identidade ganha valor. Quando a pessoa compreende sua trajetória, suas referências e a maneira como deseja ser interpretada, ela consegue utilizar as ferramentas sem desaparecer dentro delas. Não podemos tratar diversidade apenas como a inclusão de diferentes aparências em uma fotografia ou campanha. A diversidade precisa estar presente nas equipes que desenvolvem as tecnologias, nos bancos de dados, nas referências culturais e nos critérios utilizados para definir o que será considerado relevante", analisa a consultora.
À frente da Pittaco Consultoria e da Pittaco Academy, Cáren tem transformado a vida de mais de 4 mil afrobrasileiras, posicionando a moda como estratégia de poder simbólico. Sua trajetória mostra que a imagem de uma marca ou indivíduo é moldada pela coerência entre o que se defende, o que se comunica e o que se entrega no mundo real. Em um cenário corporativo cada vez mais automatizado, a especialista defende que a pluralidade cultural brasileira precisa ser integrada no desenvolvimento das tecnologias.
"Em um país plural como o Brasil, precisamos considerar as diferentes culturas, territórios, corpos, cabelos, tons de pele, idades, identidades e formas de comunicação existentes. A tecnologia pode ampliar a diversidade, desde que essa diversidade também esteja presente na sua construção. Caso contrário, corremos o risco de utilizar ferramentas extremamente modernas para repetir padrões muito antigos. A geração Z já ampliou a compreensão de que imagem não é apenas roupa ou aparência física. Imagem também é narrativa, pertencimento, posicionamento e possibilidade de experimentação. A geração Alpha está crescendo com ferramentas capazes de materializar essas narrativas em segundos. O nosso desafio não é impedir essa transformação, mas desenvolver consciência para que a tecnologia seja utilizada como instrumento de expressão e não como uma nova forma de prescrição social", conclui.

Comentários
Postar um comentário