“Um país que teve anos de escravidão, que tem populações indígenas, escolhe a classe média branca para contar histórias?”, questiona Eugênio Lima
“Um país que teve anos de escravidão, que tem populações indígenas, escolhe a classe média branca para contar histórias?”, questiona Eugênio Lima
Com Black Machine, Eugênio Lima transforma ‘Hamlet’ em um embate contra o racismo estrutural e os apagamentos que moldaram a história do teatro brasileiro.
A história do teatro brasileiro é atravessada pela disputa de representação. Durante décadas, corpos negros e indígenas foram afastados dos espaços de criação, enquanto narrativas sobre o Brasil eram construídas a partir de uma perspectiva única. Na contramão desse processo, movimentos como o Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por Abdias do Nascimento, abriram caminhos para uma cena comprometida com a presença, a memória e a afirmação de outras histórias. Herdeiro dessa tradição, Eugênio Lima, diretor do espetáculo Black Machine, construiu sua trajetória artística entre a dança, a música e o teatro, defendendo a arte como ferramenta política de transformação do imaginário coletivo.
À frente da montagem Black Machine, uma releitura de Hamlet atravessada pelas vozes de Frantz Fanon, Jean-Michel Basquiat, Aimé Césaire, Mano Brown, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Erykah Badu, Eugênio afirma que seu trabalho nasce da necessidade de questionar quem tem o direito de ocupar os palcos e quais histórias são ‘autorizadas’ a serem contadas. “Fazer arte, desde a opção que eu tomei, passa pela construção imagética, pela representação. Tem sido difícil, nunca foi fácil, mas isso também é uma marca da construção. A estrutura é racista, colonial e organizada para a exclusão da nação”, afirma.
Com uma trajetória marcada pela criação de coletivos, desde a dança, passando pela música até chegar ao teatro, Eugênio defende que a produção artística não deve ser construída a partir da ideia de excepcionalidade individual, mas através de alianças e processos coletivos. “A minha vida inteira passou pela construção de coletivos. Eu sou um cara que gosta de coletivo, é assim que a gente constrói. Esse lugar de ser o único, de estar à frente, também faz parte de uma lógica de exclusividade. Quando você coloca uma única pessoa como especial, você empobrece a perspectiva da imaginação do próprio país”, comenta.
Analisando a permanência de mecanismos de exclusão na cultura brasileira, Eugênio destaca que o debate sobre representação ultrapassa a presença física de artistas negros nos espaços culturais e envolve também a possibilidade de construir novas perspectivas estéticas e narrativas.
“Refletindo historiacamente a partir da experiêcia TEN, como a gente vai discutir a nação se negros e indígenas não estão representados – nem no palco e nem na plateia? Você está estruturando um teatro moderno e essas pessoas simplesmente não existem? O que você está falando sobre esse país? O blackface não é apenas ‘blackface’ porque ele é racista. Ele está dizendo que nenhuma pessoa negra poderia dar vazão àquelas emoções, que não tinha profundidade lírica ou dramática. Um país que teve anos de escravidão, que tem populações indígenas, escolhe uma classe média branca para contar essas histórias? Isso não faz sentido, e o TEN veio pra mostrar isso”, questiona.
A partir de sua pesquisa sobre Abdias Nascimento, Frantz Fanon e movimentos de resistência negra, Eugênio defende uma compreensão mais ampla das lutas sociais, aproximando as experiências negras, indígenas e quilombolas. “Durante muito tempo discutimos a interseccionalidade como algo interpessoal, pensando raça e gênero. Está na hora de entender isso a partir das lutas. Não são apenas as pessoas e as opressões, mas os movimentos, os agenciamentos. A luta negra e a luta indígena não estão conectadas por acaso”, comenta.
Para o artista, a disputa por território, memória e educação faz parte de um processo histórico comum entre populações colonizadas. Segundo o diretor, o apagamento cultural também acontece através dos processos educacionais, que durante décadas invisibilizaram contribuições negras e indígenas na formação brasileira. “Uma das formas de massificar o complexo de inferioridade é através da educação. A educação brasileira é profundamente racista, existe um apagamento da população negra e indígena. Isso cria uma distância histórica que não é acidental”, alerta.
Essa disputa pelo imaginário também está presente em Black Machine, espetáculo que Eugênio apresenta a partir de uma releitura de Hamlet atravessada pela iconografia negra. A obra dialoga com a dramaturgia de Dione Carlos e transforma a peça clássica em um espaço de confronto simbólico. “É um Hamlet enegrecido, para jogar o jogo que eu jogo. É um embate, muitas palavras faladas, como um ringue metafórico pela iconografia negra”, conclui Eugênio.
Ao fim do mês de julho, Eugênio Lima se junta ao elenco da 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, que homenageia os 80 anos do Teatro Experimental do Negro. Nesta edição, o festival reúne nomes como Aldri Anunciação, Clayton Nascimento, Leda Maria Martins, Elisa Larkin, Paulo Henrique dos Santos, Luciany Aparecida e outros artistas da dramaturgia negra contemporânea, entre os dias 28 de julho e 3 de agosto, em Salvador.
Melanina Acentuada Festival - Ano 8 é um projeto apresentado pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, patrocínio da Novelis e apoio do CCBB. Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado. Realização: Melanina Acentuada Produções, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Governo Federal.
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