[TEATRO | REESTREIA SP] Indicado ao prêmio Shell de Teatro "As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência" ganha nova temporada gratuita no Itaú Cultural - A partir de 6 de agosto
"As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência" em curta temporada gratuita no Itaú Cultural
Uma adaptação a partir da obra Luigi Pirandello e Aimé Césaire para pensarmos o racismo estrutural e as disputas por visibilidade no Brasil contemporâneo.
Foto: Marcelle Cerutti
Reestreia em São Paulo, no Itaú Cultural, a partir de 06 de agosto, o espetáculo “As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência”, uma adaptação dramatúrgica que articula o metateatro de Luigi Pirandello e a poética anticolonial de Aimé Césaire para criar uma metaficção e discutir o racismo estrutural e suas formas de representação no Brasil contemporâneo.
Durante o ensaio de uma comédia de Pirandello, um grupo de funcionários negros do teatro interrompe a cena e reivindica o direito de narrar a própria história. A partir desse gesto, o espetáculo transforma o palco em campo simbólico de disputa entre personagens/personas brancos e negros, visibilidade e apagamento, representação e existência.
Idealizado e dirigido por Anderson Negreiro e pela diretora colombiana Daniela Manrique, o projeto reúne autores de contextos distintos, mas atravessados por uma mesma questão: o direito à existência e à autoria. A ideia surgiu em 2021, quando o diretor trabalhou com o texto “E os cães se calavam”, tragédia de Aimé Césaire presente na coletânea de poemas "As Armas Milagrosas". O contato com a obra do autor martinicano, um dos fundadores do movimento da negritude, foi revisitado posteriormente, a partir da releitura do clássico “Seis Personagens à Procura de um Autor”, de Luigi Pirandello.
“Percebi que aquelas personagens que entram pela coxia em busca de um autor, reivindicando a continuidade da própria existência, poderiam ser corpos reais — personagens criados pela branquitude que, mais do que personagens ficcionais, lutam por existir e afirmar sua autoria no mundo”, afirmam os diretores.
Na nova dramaturgia, o diretor substitui as seis personagens originais do texto de Pirandello por personagens presentes na obra de Césaire — o Rebelde, a Mãe e o Coro — representadas como funcionários de um teatro. Essas figuras deixam de ser personagens ficcionais e passam a ser corpos reais, racializados, que reivindicam o direito de existir e de se expressar por meio da arte.
"Pensando nisso, me veio a ideia de trabalhar com conceitos presentes no livro da Lilia Schwarcz, “Imagens da Branquitude – Presença e ausência”, em que ela analisa como as pessoas negras aparecem nas pinturas ao longo das décadas, sempre à margem, no fundo, em perspectiva e quase desaparecendo, enquanto as figuras brancas estão no centro e com muita luz. A partir disso, percebi que a própria luz poderia ser o dispositivo da encenação”, afirma Anderson Negreiro.
A partir das contribuições de Lilia, “Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência” estrutura-se inteiramente a partir da luz.
O desenho de luz, criado por Matheus Brant, organiza o espaço em torno de um cubo central iluminado que separa o centro da margem.
“A luz é a dramaturgia que revela a separação dos corpos. É por meio dela que a gente torna visível uma estrutura que normalmente não se vê — o racismo que organiza quem está no centro e quem fica à margem”, afirma Anderson Negreiro.
Matheus Brant está indicado ao Prêmio Shell de Teatro, na categoria Iluminação pela luz criada para o espetáculo.
No interior do cubo estão o Primeiro Ator e a Primeira Atriz, representações alegóricas da branquitude. À margem, permanecem os funcionários negros do teatro — inspirados nas personagens de Césaire — que operam o espaço e tentam atravessar a fronteira luminosa.
Sem cenário fixo, a montagem utiliza um carpete e adereços pontuais, de modo que a iluminação se torna o principal elemento visual e narrativo. A peça se constrói como um ensaio interrompido, em que as figuras negras reivindicam sua presença e impõem novas vozes à cena. O resultado é um teatro de conflito e exposição que desloca as hierarquias entre quem é visto e quem é invisibilizado.
Sinopse
A obra “As Armas Milagrosas: seis personagens à procura de existência” fricciona “Seis Personagens à Procura de Autor”, de Luigi Pirandello, e “Os Cães se calavam”, tragédia de Aimé Césaire, para discutir existência, raça e representação. Durante um ensaio teatral, funcionários negros do próprio teatro interrompem a cena e reivindicam o direito de narrar sua história. A partir desse embate, o espetáculo transforma o palco em um espaço de confronto simbólico entre a representação tradicional e a insurgência de novas vozes, culminando em um gesto de ruptura com o olhar colonial.
FICHA TÉCNICA
Serviço
"Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência"
Temporada de 06 à 16 de agosto de 2026.
Quinta à Sábado, às 20h | Domingos às 18h.
Ingressos Gratuitos com retirada 01 (uma) hora antes de cada sessão.
14 anos | 120 minutos.
ITAÚ CULTURAL
Avenida Paulista, 149, Bela Vista
Telefone: (11) 2168-1777
https://www.itaucultural.org.
Assessoria de Imprensa
Rafael Ferro
Sobre Aimé Césaire
Aimé Césaire, filho de um pequeno funcionário e uma costureira, tendo sido um estudante brilhante na Martinica, Césaire conquistou uma bolsa de estudos no Liceu Louis Le Grand, em Paris. Estudante em Paris, junto a outros estudantes, entre ele Léopold Sédar Senghor, funda o jornal L'Étudiant noir " (O Estudante negro), no ano de 1934. Nas páginas deste jornal aparece pela primeira vez o conceito de "NEGRITUDE", formulando dentro da própria França uma crítica à opressão cultural do sistema colonial francês. Criou também a revista PRESENÇA AFRICANA onde publicou DISCURSO SOBRE O COLONIALISMO com dura crítica ao racismo e colonialismo europeu, além de criar o partido “progressista” com o intuito de instaurar o socialismo na Martinica.
Sobre Pirandello
Luigi Pirandello Pirandello nasceu em uma família de classe alta em Agrigento, uma cidade no sul da Sicília. Seu pai, Stefano, pertencia a uma rica família envolvida na extração do enxofre, e sua mãe, Caterina Ricci Gramitto, também tinha uma origem abastada, descendente de uma família da classe profissional burguesa de Agrigento. Em 1924, Pirandello escreveu uma carta a Benito Mussolini pedindo-lhe que fosse aceito como membro do Partido Nacional FASCISTA. Em 1925, Pirandello, com a ajuda de Mussolini, assume a direção artística e, posteriormente, se torna proprietário do Teatro d'Arte di Roma, fundado pelo Gruppo degli Undici. Ele se descreveu como "um fascista porque era italiano". Em 1934 ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura e deu sua medalha do Prêmio Nobel ao governo de Mussolini para ser derretida para a Campanha fascista. O apoio de Mussolini lhe trouxe fama internacional e uma turnê mundial.

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