Leda Maria Martins, Elisa Larkin, Juão Nyn e expoentes da cena negra e indígena celebram 80 anos do ‘Teatro Experimental do Negro"

 Leda Maria Martins, Elisa Larkin, Juão Nyn e expoentes da cena negra e indígena celebram 80 anos do ‘Teatro Experimental do Negro’

Oito décadas após a fundação do TEN, festival promove encontro entre teatro, literatura e pensamento negro contemporâneo em homenagem ao legado de Abdias do Nascimento.


A chegada do mês de julho anuncia a ‘principal temporada da dramaturgia negra’ no Brasil. Os atores contemporâneos Paulo Guidelly (A Nobreza do Amor), Juão Nyn, Lincoln Oliveira e Clayton Nascimento dividem os palcos com nomes da literatura como a ativista norte-americana Elisa Larkin e a ensaísta Leda Maria Martins – pela 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, fundado pelo ator, autor e dramaturgo Aldri Anunciação


Figuras internacionais e nacionais, vindas do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Norte e da Bahia, desembarcam no berço afrodiaspórico da cidade de Salvador, durante sete dias de homenagens às narrativas e aos povos originários africanos e afroindígenas. Nesta edição, o festival acontece de 28 de julho a 3 de agosto.


Expoentes da dramaturgia, literatura, música, comédia e variadas outras linguagens artísticas se reúnem para celebrar as oito décadas do Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado pelo ator, poeta, dramaturgo e ex-senador Abdias do Nascimento. Ao todo, mais de 30 artistas e personalidades contemporâneas participam da nova edição do “Melanina Acentuada”, que, há 14 anos, amplia o legado da dramaturgia negra deixada por Abdias. 

Com a programação voltada ao eixo afrodiaspórico e afroindígena, do teatro à música, passando pela literatura, o “Melanina Acentuada” transforma o palco em ponto de encontro de artistas, pesquisadores e intelectuais. A nova edição reúne produções consagradas, espetáculos naturais de São Paulo e Rio, debates, publicações inéditas e encontros entre diferentes gerações de autores.

“Os nossos mundos estão conectados, a luta é a mesma. Eu costumo dizer que, para nós (pessoas indígenas), as pessoas negras são indígenas ‘de África’, de Alkebulan, que é um dos nomes ancestrais de África. E que essas pessoas sofreram a mesma violência colonial que nós, com essa diáspora – até mais violenta, foram retiradas de sua terra; no nosso caso, retiraram a terra da gente. Nós temos que fazer essas coisas para atritar os mundos, para que pessoas negras, indígenas, mulheres, PCDs, trans, travestis, enfim, estejam em todos os lugares. Nós não estamos. Então, o meu trabalho é muito pela perspectiva de destruir o topo, não ter topo, porque ter um topo é ter uma base, ter pessoas exploradas. E quando eu penso pela perspectiva indígena, eu penso indígenas no todo, em todos os lugares”, afirma Juão Nyn

Entre os destaques está a participação da ensaísta, dramaturga e professora Leda Maria Martins, considerada uma das principais referências dos estudos sobre performance, ‘oralitura’, ‘tempo espiralar’ e teatro negro no Brasil. Durante o festival, a pesquisadora também apresenta o lançamento de seu novo livro, “A Fina Lâmina da Palavra”, publicado pela Editora Cabogó, ampliando o discurso sobre memória, ancestralidade e criação artística negra.

“No livro ‘A Fina Lâmina da Palavra’  traço uma paisagem crítico-teórica sobre  criações  estéticas  de vários gêneros, que, ao longo dos anos, tem me encantado. Poeticamente, a linguagem analítica se debruça, com prazer, sobre várias composições, visando despertar também no leitor o sabor da e pela arte. Para mim é sempre um prazer participar do Melanina que, nesta edição, prima por nos oferecer ênfases nos saberes bantos e também uma bela homenagem ao Teatro Experimental do Negro”, destaca a autora Leda Maria Martins

Outra presença de destaque é a da escritora, pesquisadora e ativista Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias do Nascimento e presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro). Responsável por preservar parte significativa do legado intelectual e político deixado por Abdias, Elisa também assina a coautoria do livro “Teatro Experimental do Negro: Testemunhos e Ressonâncias”, publicado ao lado de Aldri Anunciação e Jessé Oliveira. A obra revisita o histórico ano de 1966 na vida de Abdias e reúne reflexões contemporâneas sobre a permanência do TEN como uma das maiores referências do ‘teatro afrobrasileiro’.

“O IPEAFRO cuida do legado de Abdias Nascimento e das organizações que ele criou, como o TEN. É enorme a satisfação de participar do Festival Melanina Acentuada, uma das iniciativas mais marcantes de teatro negro no Brasil atual. Ao organizar, com Jessé Oliveira, o livro ‘TEN: Testemunhos e ressonâncias’, tivemos o privilégio de contar com o ensaio de Aldri Anunciação; e o lançamento desse livro no âmbito do Festival Melanina Acentuada é motivo de alegria e orgulho”, explica Elisa Larkin

A programação também reúne espetáculos emblemáticos da dramaturgia negra. O premiado MACACOS, do ator e dramaturgo Clayton Nascimento, retorna aos palcos como uma das principais obras brasileiras dedicadas à reflexão sobre o racismo. 

A força da peça, que emociona o público, consolidou Clayton como o 4º ator negro mais jovem a receber o Prêmio Shell de Teatro, além do APTR de Teatro (2024) e o Prêmio APCA (2023). Em cena, apenas o corpo do artista e um batom compõem a narrativa. “Com um batom em punho, um homem negro pergunta: por que ainda nos chamam assim?”, provoca Clayton. 

Enquanto isso, o espetáculo “Namíbia, Não!”, de Aldri Anunciação, com direção de Lázaro Ramos e participação gravada de Wagner Moura, celebra ‘15 anos’ desde sua estreia no teatro, mantendo-se como uma das montagens mais importantes da dramaturgia contemporânea ao imaginar um Brasil marcado pela institucionalização da perseguição à população negra.

Entre as estreias, o festival apresenta TYBYRA – Uma Tragédia Indígena Brasileira, monólogo do escritor potiguara Juão Nyn, ampliando o diálogo entre as narrativas negras e afroindígenas. A dramaturgia de estreia do artista retrata uma ficção sobre o primeiro caso de LGBTfobia, com um corpo nativo documentado no país: Tybyra, indígena Tupinambá. Lançado como livro, de mesmo nome, em 2020 pela editora ‘selo doburro’, o texto ganhou destaque nacional ao conquistar sua indicação ao 21º Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade LGBT+.

A homenagem a Abdias também ganha dimensão cênica com o espetáculo Abdias do Nascimento, protagonizado pelo ator carioca Lincoln Oliveira ao lado de Paulo Guidelly e João Vitor Nascimento. A montagem revisita os primeiros anos da trajetória do intelectual, dramaturgo, artista plástico e ativista, evidenciando a criação do Teatro Experimental do Negro como um dos acontecimentos mais transformadores da história cultural brasileira e um marco na luta pelo protagonismo negro nas artes.

Além dos espetáculos, o festival reúne escritores, pesquisadores e artistas como Guilherme Diniz, Jessé Oliveira, Eugênio Lima, Luciany Aparecida, Daniel Arcades, Sulivã Bispo e Johayne Hildefonso, consolidando um espaço de circulação de novas pesquisas, lançamentos editoriais e reflexões sobre os caminhos da produção artística negra contemporânea.

Idealizado pelo dramaturgo Aldri Anunciação, o Melanina Acentuada chega à sua oitava edição consolidado como uma das principais plataformas dedicadas exclusivamente à dramaturgia negra no país. Ao longo de 14 anos de trajetória, o projeto acumulou dezenas de montagens, promoveu o intercâmbio entre artistas de diferentes estados brasileiros e fortaleceu uma rede nacional de criação, formação e difusão das artes cênicas afrodiaspóricas, reafirmando que o legado iniciado por Abdias do Nascimento permanece vivo e em permanente transformação nas novas gerações de autores, pesquisadores e intérpretes.

Melanina Acentuada Festival - Ano 8 é um projeto apresentado pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, patrocínio da Novelis e apoio do CCBB. Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado. Realização: Melanina Acentuada Produções, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Governo Federal.


PROGRAMAÇÃO OFICIAL - MELANINA ACENTUADA FESTIVAL - ANO 08

Confira nas redes sociais: @melaninaacentuada

(A programação pode sofrer alterações)


SERVIÇO


[Melanina Acentuada Festival – Ano 8]
Quando: de 28 de julho a 3 de agosto;
Onde: Goethe-Institut Salvador (Vitória), Teatro Sesc Casa do Comércio (Caminho das Árvores), Teatro Jorge Amado (Pituba), Teatro Martim Gonçalves (Canela) e SESI Rio Vermelho (Rio Vermelho).


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