Após oficialização da Rua do Samba da Barra Funda, edição especial do Festival Cartografias de Bamba e Samburbano acontece no dia 26 de julho
Iniciativa Negra, Samburbano e Bar do Chagas assinam programação especial que cultua a memória, o patrimônio, a música, a economia criativa e a ocupação cultural do espaço público
Sambista Roberto Ribeiro em evento na Rua do Samba - Créditos: Acervo Familia Tobias
São Paulo, julho de 2026 – No domingo, dia 26 de julho, será realizada uma edição especial do Festival Cartografias de Bamba com Samburbano, em grande celebração pública após o reconhecimento oficial da Rua João de Barros como Rua do Samba da Barra Funda, fruto da articulação entre sociedade civil, movimentos culturais e poder público. A proposta foi acatada pela Bancada Feminista, que apresentou um projeto de lei para a mudança do nome da rua publicada em Diário Oficial, contribuindo para a preservação da memória da cidade. A partir das 11h, estão programadas atividades diversas como uma caminhada histórica pelo território, lavagem da rua pelas baianas, rodas de samba com a Velha Guarda Musical do Camisa Verde e Branco, Samburbano, e Batucada Nossa Tradição, feira de economia criativa, e entrega de flâmulas em reconhecimento às contribuições pela cultura do samba e território, entre outras ações previstas no roteiro.
Contexto histórico
A região da Barra Funda possui um rastro histórico de cultura do samba, organização coletiva e legado negro que é inegável. Foi ali que surgiu o Largo da Banana, considerado o berço do samba paulistano, e onde nasceu, em 1914, o primeiro cordão carnavalesco da cidade fundado por Dionísio Barbosa: o Cordão da Barra Funda, que em 1953 ressurge como Cordão Carnavalesco Camisa Verde e Branco, que posteriormente deu origem a escola de Samba Camisa Verde e Branco. Até os dias atuais, a população negra do território enfrenta ataques promovidos pela gentrificação e da violência, que já afastaram várias famílias que compunham a base da formação cultural do bairro da Barra Funda, e que hoje, por meio da organização coletiva das comunidades do samba, resistem buscando por reconexão, reconhecimento e pela manutenção de seus legados históricos.
A família Tobias está entre essas “famílias baluarte” que, desde 1953, sob a liderança do patriarca e Cardeal do Samba, Seu Inocêncio Tobias, atuou fortemente para a manutenção da cultura do samba. Seu filho, Carlos Alberto Tobias (Tuba), participou da consolidação da Rua João de Barros como Rua do Samba ainda na década de 80, estando à frente do movimento cultural de rua, com artistas referência como Alcione, Jorge Ben, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro e dona Ivone Lara, mas também fortalecendo a comunidade por meio do espaço cedido a novos compositores e “canjas” de músicos do território.
[Imagens da Rua do Samba na Barra Funda, com apresentação de Jorge Ben, na década de 80 - crédito: Acervo Família Tobias
Para Nathália Oliveira, cofundadora da Iniciativa Negra e organizadora do Festival, a volta da Rua do Samba da Barra Funda, e o movimento de preservação e resgate da memória do território perpassa pelas investigações feitas pelo projeto Cartografias de Bamba, lançado em 2025 pela Iniciativa Negra. “Com o Cartografias descobrimos toda a potência criativa daqueles que já produziam cultura na Barra Funda, e entendiam esse movimento coletivo como uma ferramenta de resistência e de sobrevivência. Revisitar essa história, tomando como perspectiva sujeitos que dedicaram suas vidas a esse universo, também foi a maneira que encontramos de marcar o protagonismo desses “griôs” (pessoas que guardam a memória dos acontecimentos, seus significados e valores) e a importância de suas trajetórias para as gerações que virão. A mudança oficial para Rua do Samba abre espaço para o fortalecimento de políticas públicas voltadas à valorização da memória, do patrimônio imaterial e das manifestações culturais negras que sempre estiveram aqui”.
“Ver a antiga Rua João de Barros passar a se chamar Rua do Samba da Barra Funda é um momento de profunda emoção. Estamos reconhecendo oficialmente um território que guarda a memória de homens e mulheres que fizeram do samba um patrimônio cultural de São Paulo. Minha avó, Cacilda da Costa, a Dona Sinhá, e meu avô, Inocêncio Tobias, ajudaram a construir essa história, assim como tantas famílias que transformaram a Barra Funda em um dos grandes berços do samba paulistano. Como neta, sinto a responsabilidade de preservar essa memória e acredito que esse reconhecimento fortalece nossa identidade. Que cada pessoa que passar por essa rua saiba que ali pulsa a história, a resistência e o legado do nosso povo”, reforça Symone Tobias, compositora importante figura do samba paulistano, neta de Seu Inocêncio Tobias e uma das homenageadas do Cartografias de Bamba.
Carlos Alberto ‘Xará’, também membro da família Tobias e um dos fundadores da Batucada Nossa Tradição complementa, "nosso propósito é resgatar a memória daqueles e daquelas que fizeram e fazem parte da história do Carnaval e do samba paulistano… Dionísio Barbosa, Inocêncio Tobias, Dona Sinhá, Carlos Alberto Tobias, o Tuba. A Rua do Samba da Barra Funda é mais do que um endereço. É um símbolo vivo da resistência, da cultura negra e da memória do povo do samba."
Programação
Às 11h, haverá uma caminhada histórica realizada pelo Guia Negro, plataforma de afroturismo responsável por promover experiências turísticas em diferentes cidades brasileiras, com roteiro incluino as ruas do bairro operário considerado o berço do samba em São Paulo, para resgate das histórias negras e seus apagamentos.
No período da tarde, o público poderá acompanhar a lavagem e a defumação da Rua do Samba, com as baianas e autoridades religiosas do território, aproveitando ainda a feira de economia criativa — alimentos, bebidas e produtos diversos — montada por expositores locais, empreendedores de vários setores de artesanato.
A partir das 15h, haverá a roda de samba com a Velha Guarda Musical do Camisa Verde e Branco, seguida pela entrega de flâmulas em deferência a pessoas que apoiam a iniciativa e personalidades que fazem parte do arcabouço histórico e social do samba. Nathália Oliveira e Carlos Alberto ‘Xará’ são os mestres de cerimônia. Mandatos parlamentares parceiros também estarão presentes.
A partir das 17h15, o projeto Samburbano, comandado pela sambista Roberta Oliveira, promoverá a roda de samba aberta ao público e com participação especial de Symone Tobias e convidados. Será lançado Cartilha, primeiro single de Párcio Anselmo, músico, sambista e compositor, ativo na cena cultural do samba do território. Já à noite, às 21h, a Batucada Nossa Tradição, encerrará a celebração.
“O principal ativo dos comércios aqui da região é a união popular por meio do samba e das rodas e encontros que acontecem aqui. Essa celebração é mais uma prova da força que a Barra Funda tem”, afirma Francisco Cosme de Oliveira
proprietário do Bar do Chagas.
Roberta Oliveira, cantora e sambista responsável pelo projeto Samburbano, comemora o fato no cenário do samba de São Paulo. “Sou cantora, aprendiz de sambista e articuladora. Adoro cantar na rua e tenho nela a possibilidade de cumprir uma missão que é a de cantar o samba da terra e da minha gente da forma mais acessível e democrática possível. A Rua do Samba é uma vitória que reconhece tudo o que foi feito em prol do Samba. Samba que educa, alimenta, agrega e fomenta”.
O Festival integra o calendário de ações culturais realizados pela Iniciativa Negra em parceria com o Samburbano e o Bar do Chagas, para fortalecer a preservação do legado da cultura negra no território paulistano, unindo o samba à economia criativa.
Sobre o Cartografias de Bamba
Idealizado e coordenado pela socióloga Nathalia Oliveira, o projeto surgiu em 2024, com caráter multidisciplinar e se baseia em pesquisas e entrevistas com figuras marcantes do samba da Barra Funda, reconhecendo o local como um território historicamente negro e sambista. Entre os depoentes estão Paulo Henrique Correa, um dos fundadores da Velha Guarda Musical e da ala Velha Guarda do Camisa Verde e Branco, as primeiras de São Paulo, Symone Tobias, neta do fundador da escola, Zelão e Seu Ideval, compositores icônicos do samba e Tia Neide — que traçaram um mapa afetivo e cultural do samba paulistano, a partir de vivências, causos e memórias compartilhadas.
O projeto realiza eventos e festivais como forma de educar as novas gerações e reverenciar os griôs em vida e seus legados. Para o ano de 2026 o projeto prevê ampliar os territórios e personagens entrevistados, além de desenvolver uma metodologia de coleta de acervos sobre as memórias encontradas.
O projeto também lança publicações periódicas, tais como a Coleção Cardeais do Samba, e tem como parceiros o Alma Preta, Editora Dandara, Lab Cidade- USP, e os mandatos da deputada estadual Leci Brandão e Ediane Maria.
SERVIÇO
Festival Cartografias de Bamba e Samburbano - Especial Rua do Samba da Barra Funda
Data: 26/07/2026 (domingo)
Horário: das 11h00 às 22h00
Local: Rua João de Barros, 23 / Rua do Samba (Bar do Chagas) – Barra Funda - SP
Entrada gratuita / Rua fechada para o evento
*Sujeito à lotação do espaço
Programação:
11h–13h – Caminhada histórica conduzida pelo Guia Negro
13h - 14h – Lavagem e defumação da Rua do Samba pelas Baianas e autoridades religiosas do território
14h–21h – Feira de economia criativa, alimentos e bebidas.
15h–16h – Show da Velha Guarda Musical do Camisa Verde e Branco.
16h15 – Entrega de flâmulas e agradecimentos - Mestres de cerimônia Nathalia Oliveira e Carlos Alberto ‘Xará’
17h15–18h15 – Samburbano
18h15 - 19h00 - Discotecagem
19h -21h – Samburbano com participação especial de Symone Tobias e convidados
21h -22h – Encerramento com Batucada Nossa Tradição
Sobre a Iniciativa Negra - Dez anos
A Iniciativa Negra é uma organização da sociedade civil que atua na promoção da justiça racial, com foco em incidência política, advocacy, fomento criativo e produção de conhecimento. Desde 2015, articula ações nas áreas de política de drogas, direitos humanos, cultura, educação popular e economia viva, com destaque para experiências que partem de territórios negros com foco no desenvolvimento da sociedade civil organizada. Com o projeto Cartografias de Bamba, lançado em janeiro de 2025, a organização visa o resgate da memória e do protagonismo negro na formação cultural do bairro da Barra Funda, através da história do samba e do legado deixado pela comunidade negra no território.
Sobre o Samburbano
O Samburbano é um projeto cultural que realiza rodas de samba em espaço público, com foco na ocupação urbana, acesso gratuito e valorização da cultura popular. Atua de forma recorrente na Barra Funda, promovendo encontros que conectam artistas, público e território.
Comentários
Postar um comentário