NOVA DATA DE ESTREIA > No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração | dia 03/07 na Goma Capulanas
A Capulanas Cia de Arte Negra inicia as celebrações de seus 20 anos com No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração
Trabalho inspirado na cosmologia iorubá-nagô circula gratuitamente por São Paulo entre junho e agosto; em cena a história de Capulanas, uma mulher negra que gesta um espetáculo dentro do próprio ventre.
Cena de No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração - Foto Noelia Nájera
A encenação incorpora ventres de madeira criados pelo artista beninense Barthélémy Hountchonou, aproximando a cena de tradições ancestrais do universo iorubá.
Inspirado na cosmologia iorubá-nagô e nas experiências de mulheres negras, o espetáculo No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração transforma o ventre feminino em território de memória, ancestralidade e criação. A nova montagem da Capulanas Cia de Arte Negra realiza temporada gratuita entre os dias 03 de julho e 9 de agosto de 2026, passando pela Goma Capulanas, no Jardim São João; pelo Terreiro Ilê Axé Dará Omo Ofá Bebê, no Balneário Dom Carlos; e pelo Teatro de Arena Eugênio Kusnet, na Vila Buarque. A circulação integra o projeto A Casa, o Terreiro e o Teatro, contemplado pela 44ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo e concebido para dialogar com diferentes territórios de encontro, criação e ancestralidade.
Com direção de Olaegbé, que assina a dramaturgia ao lado das demais integrantes do grupo, a peça acompanha a trajetória de Capulanas, uma mulher negra que gesta um espetáculo dentro do próprio ventre. Orientada por Milagros, uma sensível médica afro-cubana, ela inicia uma busca pelos fragmentos de uma história coletiva de mulheres extraordinárias que ensaiaram, dia após dia, o nascimento de uma nova festa. Entre consultas médicas, memórias familiares e encontros com ancestrais, a obra costura temas como maternidade, violência obstétrica, apagamento histórico e resistência cultural.
A jornada é atravessada por personagens, entidades e figuras ancestrais que colaboram para esse nascimento coletivo, entre elas Tia Ma Monserrat, Maria Júlia Figueiredo, Maria Júlia da Conceição, Eleiê, Exu, Oshum, Oyá e Osá.
Concebida a partir da relação entre casa, terreiro e teatro, a circulação dialoga diretamente com as características de cada espaço. Na Goma Capulanas, sede da companhia, a encenação assume a atmosfera de uma casa antiga de mulheres negras. No Ilê Axê Dará Omo Ofá Bebê, a obra encontra o terreiro como território de ancestralidade, acolhimento e fortalecimento comunitário. Já no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, a arquitetura circular aproxima atrizes e espectadores, destacando a dimensão cênica e coletiva do encontro.
Um dos elementos centrais da encenação nasce do encontro entre a Capulanas Cia de Arte Negra e o artista beninense Barthélémy Hountchonou, reconhecido por seu trabalho na escultura de máscaras. Para a montagem, ele criou ventres de madeira vestidos pelas atrizes Adriana Paixão, Flávia Rosa, Débora Marçal, Sol Tereza e Beatriz Oliveira, transformando o corpo gestante em imagem cênica que conecta ancestralidade, criação e potência feminina.
Em atuação desde 2007, a Capulanas Cia de Arte Negra desenvolve uma pesquisa que coloca as experiências de mulheres negras periféricas no centro da criação artística. Em No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração, a companhia aprofunda investigações presentes em sua trajetória, aproximando espiritualidade, memória, saúde e ancestralidade afro-diaspórica.
“Escolhemos bailar para o odu Osá Meji para lembrar às mulheres negras da importância do cuidado com a própria saúde, especialmente em relação às doenças ligadas ao ventre, ao útero, às pernas e às partes sanguíneas do corpo. Durante a pesquisa, percebemos a necessidade de incentivar essa comunidade a realizar exames e, ao mesmo tempo, fortalecer sua conexão com a ancestralidade”, comenta a diretora Olaegbé.
A figura de Milagros simboliza justamente a aproximação entre esses universos. “Ela é uma doutora do SUS e, ao mesmo tempo, um grande pássaro destinado a cuidar daquela barriga. Ao realizar esse parto, Capulanas entra em contato com mulheres que enfrentaram situações como a violência obstétrica ou o diagnóstico precoce da retirada do útero”, acrescenta.
A montagem também dialoga com o Gẹ̀lẹ̀dẹ̀, dança ritual do povo iorubá presente na Nigéria, no Benin e no Togo, dedicada à celebração das mães ancestrais. Nessa tradição, dançar como as ancestrais dançam é também um gesto de cura, permanência e celebração da vida.
Essa dimensão ancestral atravessa ainda o figurino, concebido por Débora Marçal, que utiliza as roupas como dispositivos dramatúrgicos. As atrizes vestem sucessivas camadas de saiotes confeccionados com capulanas — tecido estampado amplamente utilizado em países africanos — evocando as grandes mães e estabelecendo conexões simbólicas com diferentes linhagens femininas.
Na trilha sonora, executada por Mauricio Badé, Renato Ihu, Rubi Assunção e Maicou Yuri, referências do Candomblé e da Santeria dialogam com guitarras, samplers e sonoridades contemporâneas, ampliando o encontro entre tradição e presente que atravessa toda a encenação.
O trabalho do grupo nasce da relação entre corpo, memória e território. Suas criações são construídas a partir das heranças ancestrais, das experiências vividas nas periferias urbanas e das múltiplas formas de resistência presentes no cotidiano. Em 2010, com Pé no Quintal, a companhia aprofundou a investigação sobre os territórios periféricos e suas dinâmicas culturais. Dois anos depois, ampliou essa pesquisa por meio do intercâmbio internacional Pé no Quintal de Moçambique, realizado em parceria com artistas africanos, e da criação de Sangoma – saúde às mulheres negras, espetáculo que se tornou referência ao abordar a saúde da mulher negra em diálogo com saberes ancestrais e contemporâneos.
Ao longo de sua trajetória, a Capulanas consolidou uma prática artística que compreende o teatro como produção de conhecimento. Suas obras funcionam como espaços de reflexão crítica sobre as estruturas raciais, de gênero e de classe que atravessam a sociedade brasileira.
A pesquisa desenvolvida pelo coletivo tem como eixo as espiritualidades afro-diaspóricas, os processos de cura, o prazer e os imaginários afrofuturistas, entendidos como dimensões interligadas de uma mesma investigação sobre o corpo negro feminino. Nesse percurso, o corpo é concebido como arquivo vivo, território de disputa e espaço de elaboração de futuros possíveis. Em 2014, com Sã da Cura ao Gozo, a companhia aprofundou as reflexões sobre cura e espiritualidade. Em 2016, com Ialodês – Trilogia da Mulher Negra: uma ficção afrofuturista, reafirmou a centralidade das mulheres negras como protagonistas da cena e do porvir.
Em 2012, a criação do Goma Capulanas marcou uma nova etapa da trajetória do grupo. Instalado no Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, o espaço consolidou-se como um polo de criação, formação e difusão cultural, ampliando a atuação da companhia para além da produção de espetáculos e fortalecendo sua presença no território.
FICHA TÉCNICARealização: Capulanas Cia de Arte Negra
Direção: Olaegbé
Dramaturgia: Olaegbé e Capulanas cia de Arte Negra
Elenco: Adriana Paixão, Débora Marçal, Flávia Rosa, Sol Tereza e Beatriz Oliveira
Direção de Arte: Débora Marçal
Cenografia: Studio Trânsito Ara - Débora Marçal e Olaegbé
Figurino: Studio Trânsito Ara - Débora Marçal
Criação de Máscaras: Barthélémy Hountchonou
Design de Luz: Dede Ferreira
Direção Musical: Mauricio Badé
Visagismo: Capulanas Cia de Arte Negra
Produção Administrativa: Fernanda Conceição
Produção Artística: Nicoly Soares – É tudo nosso Prod. e Olaegbé
Assistente de Produção: Larissa Góis e Kátia Patriota
Preparação Corporal: Carol Rocha Ewaci
Direção de Movimento: Verônica Santos
Preparação e Pesquisa Corporal: Deuses que dançam e Wellington Ngunga
Corpo-Voz Estudo de texto: William Simplício
Preparação de canto: Adriana Moreira
Execução e criação musical conjunta: Mauricio Badé, Renato Ihu, Rubi Assunção e Maicou Yuri
Operação de Luz: Dede Ferreira
Assistente de produção de figurino: Katia Patriota
Visagista: Claudia Andrade
Costureiras: Katia Patriota e Claudia Andrade
Cenotécnica: Kátia Patriota
Designer gráfico: Filipe Celestino
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto Comunicação
Tradução e Interpretação em Libras: Mirian Caxilé – Assessoria em Acessibilidade
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