Confira a sinopse do enredo 2027 da Lins Imperial
Agremiação disputará a Série Prata no próximo carnaval
LALÚ DE OURO – um Rei Coroado na Folia
Autor: Kitalesi (Arnaldo Roque)
Revisão: Mateus Pranto
Pesquisa, Desenvolvimento, Enredo: Kitalesi (Arnaldo Roque) e Mateus Pranto
Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.
Um dia, bradei Adeus — Estrela Brilhante. Adeus — Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.
Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes Iás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.
Fui me refazendo em outros ritmos.
Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia.
Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.
Atravessei mais uma vez o mar.
Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de Iemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.
E eu, Rei. Coroado na Folia.
Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus… Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade, fizeram-me ogã. Lalú de Ouro.
Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuque e reza se encontravam, temporalidade e corpo se misturavam. Tinha kizomba, tinha fundamento. Tinha o som — sempre o som — dos tambores atravessando noites a fio. Não cessava. Do couro batido ao sopro que rasgava o ar, da palma que marcava ao coro que respondia. Donga, João da Baiana, Pixinguinha… Era a música um modo de existir, fazendo da rua um corpo sonoro em movimento.
No pedaço que também era de Ciata, o canto ganhou forma de cortejo, e os becos se vestiram de alegria. No verso e improviso, fui fazendo da voz caminho e das vielas poesia, dizendo também o que nem sempre queriam ouvir. Dei meus primeiros passos nesse modo de expressão que, logo, tomaria forma e nome. Anos depois, já afastado de antigos companheiros... Nesse tempo, a história se fez. Foi ali que a brincadeira virou legado — e eu mesmo tratei de contar como foi:
“Em 6 de janeiro de 1893, estava eu no botequim do ‘Paraíso’, na rua Larga de São Joaquim (hoje Marechal Floriano Peixoto), entre as ruas da Imperatriz e Regente, em companhia de vários baianos que costumeiramente ali se reuniam, quando lembrei-me da festa dos Três Reis Magos que na Bahia se comemorava naquele dia. Estavam presentes o Luiz de França, o Avelino Pedro de Alcântara, o João Câncio Vieira da Silva, e eu propus então a fundação de um rancho. Passando a ideia em julgado, ali mesmo eu dei o nome de “Rei de Ouro”! Na mesma hora, no armarinho de um turco fronteiro ao botequim, comprei meio metro de pano verde e meio metro de pano amarelo e fiz um estandarte no estilo da Bahia, para os ensaios. Ninguém mais descansou. O pessoal saiu avisando que à noite havia ‘um chá... dançante’ em minha casa. (...) Às tantas da noite reuni o pessoal e disse qual o fim daquela brincadeira e então ficou definitivamente fundado o rancho, o primeiro rancho carioca. (...) Nunca se tinha visto aquilo, aqui no Rio: porta-bandeira, porta-machado, batedores.”
E de tudo isso eu fui precursor! No desenrolar dos cortejos, a elegância se fez presença, em meio a giros, mesuras e passos marcados. O corpo aprendia a cortejar a bandeira e a sustentar o rito da apresentação. Assim foi. No terceiro ano, fundei o Rosa Branca. No ano seguinte, fiz nascer o Botão de Rosa. Mais adiante, em 1899, dei forma ao rancho A Jardineira, que já no carnaval seguinte saiu às ruas, levando adiante o modo novo de brincar que a gente vinha fazendo crescer. Os ranchos davam novos sentidos à brincadeira, em que o riso, o gesto e o jogo do corpo diziam mais do que parecia. E foi assim que erguemos a nossa glória, com disciplina, beleza e invenção. Fizemos da avenida um palco, onde em cada estandarte levantado, a revelação da memória viva de uma história que veio antes de nós.
E eu, Rei. Coroado na Folia.
O sagrado e a matéria se encruzilhavam, a cidade aprendia outro compasso. Muita coisa ganhava caminho. Gente chegava, gente se formava, gente saía dali pronta. Foi nesse território que muitos nomes se fizeram e, hoje, são herdeiros de um tempo que não se perdeu, mas se espiralou. Cada qual à sua maneira, levando adiante o que ali se gestava: o samba, o cortejo, a palavra, o corpo e a rua. Nosso lugar de criação e reinvenção. E o que se firmava não ficava — se encantava. Espalhava-se em gesto, em canto, em forma de ser no mundo. Era passagem. O que nascia como experiência, seguia adiante como discurso.
Dali se fez Heitor dos Prazeres, herdeiro e guardião de memórias desenhadas no samba e na vida. Traço, ritmo e roda se encontravam como forma de narrar um tempo que seguia pulsando. Nessa mesma cadência, Ismael Silva fez do ritmo identidade, enquanto o professor Paulo da Portela transformou organização em escola.
Mais adiante, o chão seguiu vivo em outras vozes. O tempo seguiu seu curso, mas não rompeu o caminho. Em outras gerações, o fazer se reinventou, e, na avenida, ganhou nova forma de condução. Foi assim que Laíla fez do desfile linguagem ao (re)organizar o espetáculo sem romper com a raiz, enquanto o griô João Banana sustentou, na palavra e na presença, a continuidade do que ali se firmava, mantendo viva a chama de um fazer que não se encerra, mas se renova.
E se tantos caminhos se abriram, foi porque antes alguém ensinou a atravessar. No meio de todos eles, sigo eu. Não como começo. Como fundamento. O passado se levanta no presente e, na Lins Imperial, há de ser eu e nós, chão de muitos, canto de todos. Caminho que se reinscreve na avenida e no povo, como prática, como memória e como continuidade.
Eu, pra sempre, Rei. Coroado na Folia!
REFERÊNCIAS
ACERVO SOCIOAMBIENTAL. Povos indígenas no Brasil: documentação histórica e socioambiental. Disponível em: https://acervo.socioambiental. org/sites/default/files/ documents/03L00030.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP). Uma história do samba: as tias e o avô do samba. Disponível em: https://namidia.fapesp.br/uma- historia-do-samba-as-tias-e-o- avo-do-samba/241298. Acesso em: 4 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Como um valentão criou uma nova forma de pular o carnaval. Disponível em: https://temas.folha.uol.com. br/100-anos-de-samba/a- historia-que-a-rua-escreveu/ como-um-valentao-criou-uma- nova-forma-de-pular-o- carnaval.shtml. Acesso em: 4 maio 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Dossiê: Matrizes do samba no Brasil. Brasília: IPHAN, 2007.
LOPES, Nei. Dicionário social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
LIRA NETO. Uma história do samba. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PAULA, Célia Regina Silva de. Práticas discursivas e identidade cultural no samba. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: https://www.pplinuerj.com.br/ sipos/administracao/ tesesedissertacoes/documentos/ DissertacaoCELIAREGINASILVADEP AULA2.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PEÇANHA, João Carlos de Souza. O samba como expressão de identidade nacional: cultura, política e memória. 2013. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília (UnB), Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/ bitstream/10482/15715/1/2013_ JoaoCarlosdeSouzaPecanha.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PERRAUT DA SILVA, Natan. Entre tradição e espetáculo: transformações nas escolas de samba contemporâneas. 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/ bitstream/1/23273/2/ Dissertação%20-%20Natan% 20Perrout%20da%20Silva%20-% 202024%20-%20Completa.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PORTAL TERRA. A origem do casal que representa uma escola de samba: mestre-sala e porta-bandeira. Disponível em: https://www.terra.com.br/amp/ story/diversao/a-origem-do- casal-que-representa-uma- escola-de-samba-mestre-sala-e- porta-bandeira, 0f412a364434a1c62cd6fa4c56fca7 795muhvcmr.html. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ (UNESPAR). O samba e suas dinâmicas musicais contemporâneas. Revista Vórtex, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://periodicos.unespar. edu.br/vortex/article/ download/9676/7204/41499. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (UFBA). “Me chamo Elizeth Cardoso. Sou uma cantora brasileira.”: notas sobre a trajetória da Divina (1936–1965). Salvador: UFBA, [s.d.]. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ bitstream/ri/35002/1/“Me% 20chamo%20Elizeth%20Cardoso.% 20Sou%20uma%20cantora% 20brasileira.”%20Notas% 20sobre%20a%20trajetória%20da% 20Divina%20%281936-1965%29. pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). O samba e a construção da cultura popular no Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/ stricto/td/906.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). Carnaval, identidade e cultura urbana no Brasil. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/ stricto/td/1806.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
LALÚ DE OURO – um Rei Coroado na Folia
Autor: Kitalesi (Arnaldo Roque)
Revisão: Mateus Pranto
Pesquisa, Desenvolvimento, Enredo: Kitalesi (Arnaldo Roque) e Mateus Pranto
Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.
Um dia, bradei Adeus — Estrela Brilhante. Adeus — Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.
Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes Iás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.
Fui me refazendo em outros ritmos.
Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia.
Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.
Atravessei mais uma vez o mar.
Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de Iemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.
E eu, Rei. Coroado na Folia.
Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus… Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade, fizeram-me ogã. Lalú de Ouro.
Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuque e reza se encontravam, temporalidade e corpo se misturavam. Tinha kizomba, tinha fundamento. Tinha o som — sempre o som — dos tambores atravessando noites a fio. Não cessava. Do couro batido ao sopro que rasgava o ar, da palma que marcava ao coro que respondia. Donga, João da Baiana, Pixinguinha… Era a música um modo de existir, fazendo da rua um corpo sonoro em movimento.
No pedaço que também era de Ciata, o canto ganhou forma de cortejo, e os becos se vestiram de alegria. No verso e improviso, fui fazendo da voz caminho e das vielas poesia, dizendo também o que nem sempre queriam ouvir. Dei meus primeiros passos nesse modo de expressão que, logo, tomaria forma e nome. Anos depois, já afastado de antigos companheiros... Nesse tempo, a história se fez. Foi ali que a brincadeira virou legado — e eu mesmo tratei de contar como foi:
“Em 6 de janeiro de 1893, estava eu no botequim do ‘Paraíso’, na rua Larga de São Joaquim (hoje Marechal Floriano Peixoto), entre as ruas da Imperatriz e Regente, em companhia de vários baianos que costumeiramente ali se reuniam, quando lembrei-me da festa dos Três Reis Magos que na Bahia se comemorava naquele dia. Estavam presentes o Luiz de França, o Avelino Pedro de Alcântara, o João Câncio Vieira da Silva, e eu propus então a fundação de um rancho. Passando a ideia em julgado, ali mesmo eu dei o nome de “Rei de Ouro”! Na mesma hora, no armarinho de um turco fronteiro ao botequim, comprei meio metro de pano verde e meio metro de pano amarelo e fiz um estandarte no estilo da Bahia, para os ensaios. Ninguém mais descansou. O pessoal saiu avisando que à noite havia ‘um chá... dançante’ em minha casa. (...) Às tantas da noite reuni o pessoal e disse qual o fim daquela brincadeira e então ficou definitivamente fundado o rancho, o primeiro rancho carioca. (...) Nunca se tinha visto aquilo, aqui no Rio: porta-bandeira, porta-machado, batedores.”
E de tudo isso eu fui precursor! No desenrolar dos cortejos, a elegância se fez presença, em meio a giros, mesuras e passos marcados. O corpo aprendia a cortejar a bandeira e a sustentar o rito da apresentação. Assim foi. No terceiro ano, fundei o Rosa Branca. No ano seguinte, fiz nascer o Botão de Rosa. Mais adiante, em 1899, dei forma ao rancho A Jardineira, que já no carnaval seguinte saiu às ruas, levando adiante o modo novo de brincar que a gente vinha fazendo crescer. Os ranchos davam novos sentidos à brincadeira, em que o riso, o gesto e o jogo do corpo diziam mais do que parecia. E foi assim que erguemos a nossa glória, com disciplina, beleza e invenção. Fizemos da avenida um palco, onde em cada estandarte levantado, a revelação da memória viva de uma história que veio antes de nós.
E eu, Rei. Coroado na Folia.
O sagrado e a matéria se encruzilhavam, a cidade aprendia outro compasso. Muita coisa ganhava caminho. Gente chegava, gente se formava, gente saía dali pronta. Foi nesse território que muitos nomes se fizeram e, hoje, são herdeiros de um tempo que não se perdeu, mas se espiralou. Cada qual à sua maneira, levando adiante o que ali se gestava: o samba, o cortejo, a palavra, o corpo e a rua. Nosso lugar de criação e reinvenção. E o que se firmava não ficava — se encantava. Espalhava-se em gesto, em canto, em forma de ser no mundo. Era passagem. O que nascia como experiência, seguia adiante como discurso.
Dali se fez Heitor dos Prazeres, herdeiro e guardião de memórias desenhadas no samba e na vida. Traço, ritmo e roda se encontravam como forma de narrar um tempo que seguia pulsando. Nessa mesma cadência, Ismael Silva fez do ritmo identidade, enquanto o professor Paulo da Portela transformou organização em escola.
Mais adiante, o chão seguiu vivo em outras vozes. O tempo seguiu seu curso, mas não rompeu o caminho. Em outras gerações, o fazer se reinventou, e, na avenida, ganhou nova forma de condução. Foi assim que Laíla fez do desfile linguagem ao (re)organizar o espetáculo sem romper com a raiz, enquanto o griô João Banana sustentou, na palavra e na presença, a continuidade do que ali se firmava, mantendo viva a chama de um fazer que não se encerra, mas se renova.
E se tantos caminhos se abriram, foi porque antes alguém ensinou a atravessar. No meio de todos eles, sigo eu. Não como começo. Como fundamento. O passado se levanta no presente e, na Lins Imperial, há de ser eu e nós, chão de muitos, canto de todos. Caminho que se reinscreve na avenida e no povo, como prática, como memória e como continuidade.
Eu, pra sempre, Rei. Coroado na Folia!
REFERÊNCIAS
ACERVO SOCIOAMBIENTAL. Povos indígenas no Brasil: documentação histórica e socioambiental. Disponível em: https://acervo.socioambiental. org/sites/default/files/ documents/03L00030.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP). Uma história do samba: as tias e o avô do samba. Disponível em: https://namidia.fapesp.br/uma- historia-do-samba-as-tias-e-o- avo-do-samba/241298. Acesso em: 4 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Como um valentão criou uma nova forma de pular o carnaval. Disponível em: https://temas.folha.uol.com. br/100-anos-de-samba/a- historia-que-a-rua-escreveu/ como-um-valentao-criou-uma- nova-forma-de-pular-o- carnaval.shtml. Acesso em: 4 maio 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Dossiê: Matrizes do samba no Brasil. Brasília: IPHAN, 2007.
LOPES, Nei. Dicionário social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
LIRA NETO. Uma história do samba. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PAULA, Célia Regina Silva de. Práticas discursivas e identidade cultural no samba. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: https://www.pplinuerj.com.br/ sipos/administracao/ tesesedissertacoes/documentos/ DissertacaoCELIAREGINASILVADEP AULA2.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PEÇANHA, João Carlos de Souza. O samba como expressão de identidade nacional: cultura, política e memória. 2013. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília (UnB), Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/ bitstream/10482/15715/1/2013_ JoaoCarlosdeSouzaPecanha.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PERRAUT DA SILVA, Natan. Entre tradição e espetáculo: transformações nas escolas de samba contemporâneas. 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/ bitstream/1/23273/2/ Dissertação%20-%20Natan% 20Perrout%20da%20Silva%20-% 202024%20-%20Completa.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PORTAL TERRA. A origem do casal que representa uma escola de samba: mestre-sala e porta-bandeira. Disponível em: https://www.terra.com.br/amp/ story/diversao/a-origem-do- casal-que-representa-uma- escola-de-samba-mestre-sala-e- porta-bandeira, 0f412a364434a1c62cd6fa4c56fca7 795muhvcmr.html. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ (UNESPAR). O samba e suas dinâmicas musicais contemporâneas. Revista Vórtex, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://periodicos.unespar. edu.br/vortex/article/ download/9676/7204/41499. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (UFBA). “Me chamo Elizeth Cardoso. Sou uma cantora brasileira.”: notas sobre a trajetória da Divina (1936–1965). Salvador: UFBA, [s.d.]. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ bitstream/ri/35002/1/“Me% 20chamo%20Elizeth%20Cardoso.% 20Sou%20uma%20cantora% 20brasileira.”%20Notas% 20sobre%20a%20trajetória%20da% 20Divina%20%281936-1965%29. pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). O samba e a construção da cultura popular no Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/ stricto/td/906.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). Carnaval, identidade e cultura urbana no Brasil. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/ stricto/td/1806.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.



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