Atriz Alícia dos Anjos interpreta mulher cis no filme "Barulho"

 Atriz Alícia dos Anjos interpreta mulher cis no filme “Barulho”

Artista desponta como um dos novos nomes do cinema nacional e reflete sobre carreira e representatividade LGBTQIAPN+ no audiovisual

 

A presença de corpos trans nas telas e nos palcos deixou de ser apenas uma demanda por cotas para se consolidar como uma urgência artística. Quando uma atriz trans assume uma personagem, o que vai para a tela não é apenas a representação de uma minoria, mas uma bagagem de vivência que confere ao papel uma camada de verdade e traz consigo novas oportunidades.

Aos 30 anos, a atriz Alícia dos Anjos interpreta no filme “Barulho” uma mulher cis, mãe amorosa e filha dedicada de um viúvo solitário. Preso ao luto, ele vê sua rotina silenciosa ser abalada pela chegada de dois vizinhos sambistas. Entre o peso do silêncio e a leveza da música, inicia-se uma batalha invisível que o força a encarar a dor da perda, até que o som vence.

Embora compartilhe a dor de perder Eunice (interpretada pela atriz Elisa Lucinda) ao lado de Humberto (vivido pelo ator Carlos Francisco), Lúcia não se deixa abalar. Ela está triste e sofrendo, mas também sabe que precisa seguir em frente. No entanto, encontra dificuldade para penetrar na barreira resistente que seu pai criou ao redor de si.

“Foi uma honra e uma oportunidade incrível, principalmente, por ser uma “mãe” em cena, trabalhar com grandes nomes da história da tv e do cinema Brasileiro, e principalmente por ter a oportunidade de um dia ser uma referência para outros artistas trans que virão”, celebra Alícia dos Anjos.

Assumir papéis cis ainda é uma realidade pouco vista no audiovisual brasileiro, mas Alícia não hesita e encara o desafio: “Me sinto livre e horada por ter a oportunidade de viver papeis que não me limitam e me estigmatizam para viver apenas um tipo específico de personagem”.


 



Conheça Alícia dos Anjos

Nascida em Aracaju (SE), mas morando em São Paulo há 23 anos, Alícia dos Anjos cursou teatro no ETA e integra as companhias de teatro “Gufa” e “Paradoxo”. A artista protagonizou os espetáculos “Transderella”, de André Lino; “Periferida”, de Juão Nin; “Part-ir do Corpo”, de Órion Lalli; “Desculpe o Atraso, “Com Todas as Letras - Uma Comédia Romântica Musical”, de Tomaz Quaresma; e Eu Não Queria Vir”, de Mário Góes com texto premiado de Cleyton Cabral pelo Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia, em 2018. Atualmente, ela também está no elenco de “Nós Somos o Amanhã”, novo filme de Lufe Steffen.

Viver do cinema, porém, é um sonho acalentado desde a infância: “Desde pequena lá em Aracaju sempre sonhei com a vida artística, mas devido a realidade sempre vi como algo muito distante. Quando estava na adolescência, já aqui em São Paulo, tive a oportunidade de estrelar uma campanha para uma loja de roupas e fiquei encantada com esse mundo, e foi como se essa oportunidade tivesse reacendido o meu sonho de infância. Decidi meter as caras na vida artística, no meio do caminho conheci o meu amigo André Lino, que foi a pessoa que me estendeu a mão e me trouxe de fato para o meio artístico, me dando a oportunidade de estrelar o meu primeiro espetáculo profissional chamado “Transderella”, em 2017.

Embora o cenário cultural ainda demande transformações estruturais profundas, o avanço conquistado na última década aponta para uma abertura gradual, mas irreversível, dos espaços de prestígio para corpos trans. Essa percepção de evolução, aliada à consciência dos desafios que persistem, desenha o panorama de quem vive a transição do mercado na pele. “Hoje sinto que já temos muito mais representatividade no meio artístico em geral em vista há quase 10 anos atrás quando tive a oportunidade de adentrar o meio. No cinema sinto que ainda temos um caminho a mais para percorrer, mas seguimos sempre em busca de ocupar novos lugares”, afirma.

 

O Filme “Barulho”

Com um elenco completamente negro, “Barulho” é dirigido pela cineasta Karen Suzane e conta com a participação especial de Elisa Lucinda. Junto com Alícia dos Anjos, o elenco traz nomes como Dan Ferreira, Vitor Britto, Anne Belize, Joyce Bella, Mihh Moraes e Veto Martins.

A representatividade LGBTQIAPN+ da produção também se estende para trás das câmeras, fortalecendo a diversidade na composição da equipe técnica e criativa. É o caso dos roteiristas e coprodutores JulyFrans, que é bissexual, e Leonardo Lumas, que é gay.

Em fase de circulação por festivais de cinema, o curta-metragem estreou em março, durante uma sessão especial do Cine 72, em Minas Gerais, onde ganhou uma nova exibição em junho, e participou do II Festival Curta Aparecida, em Goiás. Foi selecionada para o 8º FestCine Pedra Azul International Film Festival, no Espírito Santo, e para o 3º FestFlávio - Festival Nacional de Curtas Flávio Migliaccio, no Rio de Janeiro. A estreia internacional já tem data e local: FINCI - Festival Internacional De Nuevo Cine Independiente, na Argentina, em agosto.

 



“Barulho” é patrocinado pela BB Seguros, produzido pela Maruti Blue Produções, com produção associada de Tina Tigre e distribuição da Tarrafa.


 

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