Amores negros e o não lugar do amor

 Amores negros e o não lugar do amor

Afeto e relações humanas em uma sociedade marcada pelo racismo


Para diversas pessoas negras, a luta pelo reconhecimento da própria humanidade antecedeu a possibilidade de ocupar plenamente o lugar do afeto. 


Quando falamos sobre racismo, normalmente pensamos em violência, exclusão, desigualdade, discriminação e acesso a direitos. Mas, raramente falamos sobre amor.  Pouco se discute como o racismo também moldou nossos afetos, nossos desejos, nossas escolhas amorosas e até mesmo a capacidade de nos reconhecermos como dignos(as) de amar e ser amados(as). 


Porque o racismo não organizou apenas a economia, a política e as oportunidades sociais. Ele também organizou a afetividade. Organizou a forma como aprendemos a enxergar a nós mesmos, os outros e o nosso lugar no mundo. Organizou quem seria associado à beleza, ao desejo, à delicadeza, ao cuidado e ao amor. 


O racismo produziu hierarquias de humanidade, mas também de afeto.  A branquitude foi frequentemente associada à beleza, à pureza, à delicadeza e à idealização romântica. Já a negritude foi associada à força, à resistência, ao trabalho e, muitas vezes, à hipersexualização de seus corpos. 


Nesse contexto, pessoas negras foram historicamente afastadas dos lugares simbólicos de cuidado, proteção e idealização afetiva que ajudaram a construir os modelos socialmente reconhecidos de amor. 


Então, o que aprendemos sobre o amor e sobre as relações amorosas? Crescemos cercados(as) por histórias de amor. Nos livros, nas novelas, nos filmes e nos contos de fadas. Mas quem eram as pessoas escolhidas para viver essas histórias? 


O amor também é uma narrativa social. E as narrativas importam. Não foi apenas a humanidade das pessoas negras que foi negada ao longo da história. Foi também sua possibilidade de ocupar plenamente o lugar do afeto. 


O racismo não ensinou apenas quem deveria ser amado. Também ensinou quem deveria aprender a viver sem amor. 

É nesse ponto que o letramento racial se torna fundamental. Ele nos permite perceber que muitas das nossas escolhas afetivas não nasceram apenas das preferências individuais. Elas também foram construídas dentro de uma sociedade racializada, marcada por hierarquias, padrões estéticos, relações de poder e modelos específicos de pertencimento. 


E então os relacionamentos interraciais aparecem. Não os vejo como um problema. Relações interraciais podem, sim, reproduzir desigualdades. 


Mas também podem se tornar espaços de escuta, aprendizado, transformação e reconhecimento das diferenças que atravessam a experiência de cada pessoa no mundo, uma possibilidade de revisitar referências, questionar padrões e construir novas formas de relação. Isso reforça a importância do letramento racial e do desenvolvimento de uma consciência racial que nos permita reconhecer como o racismo também atravessa nossos afetos, escolhas e formas de nos relacionar.


Isso exige compreender que o amor, sozinho, não elimina os efeitos do racismo. É preciso disposição para reconhecer privilégios e compreender que o racismo continua produzindo impactos concretos na forma como as pessoas vivem, sentem e se relacionam. Porque, no final das contas, não é sobre pessoas. É sobre estrutura. 


Para muitas pessoas negras, o amor-próprio não foi um ponto de partida.  Foi e está sendo um processo de (re)construção. 


Falar de afeto também é falar de humanidade. 


E talvez uma das maiores contribuições do letramento racial seja nos ajudar a compreender que o enfrentamento ao racismo não acontece apenas nas leis, nas instituições ou nas políticas públicas. Ele também acontece quando revemos aquilo que aprendemos sobre o amor. Quando ampliamos nossa capacidade de reconhecer humanidade, dignidade e afeto em nós e nos outros. 


Afinal, ninguém deveria precisar provar que merece amor. Mas, talvez uma das marcas mais profundas do racismo tenha sido justamente essa: ensinar quem deveria ser amado e quem deveria aprender a viver sem amor.


Suzana Coelho é assistente social, consultora em direitos humanos, diversidade, equidade e inclusão, além de fundadora e CEO do Instituto Afetto. Com mais de uma década de atuação, desenvolve estratégias de impacto social, fortalecimento institucional e desenvolvimento humano para empresas, governos e organizações da sociedade civil. Sua trajetória é marcada pela promoção da justiça social, da equidade e da construção de ambientes mais inclusivos e sustentáveis. 


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