Conheça a sinopse do enredo da Vizinha Faladeira ; João da Baiana - O Obá da Favela

 João da Baiana - O Obá da Favela 

 



PRELÚDIO

 

Para o carnaval de 2027, a Vizinha Faladeira cantará uma homenagem ao sambista João da Baiana. Revisitar essa história é abrir caminhos para que a ancestralidade do samba ganhe protagonismo, mais uma vez, em nossos carnavais. Através desse conto, os sambistas enxergam-se enquanto descendentes de um legado, regidos pela memória de uma cultura que renasce e pulsa dia após dia, samba após samba. Enquanto os nossos forem cantados, a história resistirá para re-existir.

 

SINOPSE

 

Tendo a certeza de que as raízes sustentam a caminhada, João da Baiana já nasceu com os pés fincados no chão ancestral e enérgico daqueles becos e vielas, na Senador Pompeu do Rio antigo, aprendendo a honrar e a erguer a própria cultura, fazendo da resistência de tantos o seu legado.

Ele presenciava a recriação da Bahia que se perpetuava nas periferias cariocas, herdeiras da força latente da negritude afro-brasileira. Nos barracos da “baianada”, pontos ecoavam para abafar o pranto; nos fundos dos quintais das tias baianas, cantos e batuques eternizavam, na memória, lembranças de África que jamais seriam esquecidas, mas reinventadas.

Havia samba, mas também havia macumba sendo entoada, porque toda arte que carrega consigo fundamento é assentada para conduzir o caminho. Se João tinha o destino traçado, foi no terreiro de Alabá, sob a regência das Iyás, onde o alafiou, ao toque dos atabaques daquele chão entregue a Omulu, o orixá da terra, senhor das palhas.

Marcado e guiado por toda aquela ancestralidade que o envolvia, ele se fortalecia nas próprias raízes por meio dos saberes empíricos daqueles que utilizavam seus conhecimentos populares para resistir. Entre curandeiras, quituteiras, cantadores e mães de santo, foi forjado, de macumba em macumba, um João destinado a revolucionar a história.

 

Foi nos quintais da infância que se criou aquele que se tornaria arauto da cultura popular negra carioca. Filho dos sons que brotavam do chão, fazendo das vivências primeiras sua escola e do subúrbio seu grande acervo, aprendendo cedo que a arte também é trincheira. Não passou pela história como quem atravessa uma rua qualquer; ele teceu o seu nome nela.

Nos ranchos sonhou cadência, no choro vestiu melodia e, no partido-alto, fez morada, lapidando no toque a alma sonora de um estilo inteiro.

Mas foi quando quiseram silenciar sua sinfonia que seu batuque ecoou mais alto. Nas tão frequentadas festas da Penha, em plena celebração às origens do samba, quando lhe arrancaram das mãos o pandeiro, não levaram apenas um instrumento; tentaram calar a voz que nascia das encruzas, dos terreiros e das apoteoses, sem saber que o som que emerge das multidões não se aprisiona, pois, quanto mais se tenta abafar, mais resplandecerão os ecos de um povo. Num tempo em que a lei da vadiagem tentava oprimir os corpos negros e criminalizar seus tambores, fez da resistência o compasso da própria caminhada.

Guardião da arte, abriu caminhos para que o samba pulsasse sem medo. Em suas mãos, o subúrbio virou sinfonia. No seu batuque, o povo encontrou voz. Em sua ousadia, os pandeiros conquistaram alforria.

Foi ele quem ousou reinventar o toque; das mãos inquietas nasceu a introdução do pandeiro no samba e, quando faltavam recursos, sobrava inventividade: fez do prato e da faca instrumentos de excelência. Nas mãos daqueles que carregam fundamento, qualquer som se transforma em música.

 

Ergueu-se rumo à consolidação; foi aquele que ousou ser protagonista de sua própria história, fazendo-se musicista, percussionista e compositor. O pioneiro que fez do popular o seu erudito, elevando-se à glória com a santíssima trindade do samba, o mestre-sala que ensinou os compassos a bailarem e conduzirem as melodias.

Em seus acordes, a denúncia de uma realidade longe de ser perfeita, mas enxergando, em suas poesias, o poder de subversão, fazendo escola para tantos. A partir desse João, o amanhã não teria seu destino perpetuado, pois a revolução começaria no hoje, guiada pelo avanço de cada passo dado por ele, a rebeldia que se fez resistência, de fato o “diabo do céu” que entendeu que já era hora de batuques e pontos de macumba serem eternizados, cantados e apresentados ao público nos palcos da vida. Que se deem “os louros” para o sentinela da “guarda velha” do samba; tragam oito batutas para reger seu legado, com toda “gente da antiga” presenciando o seu triunfo.

 

Nessa sina, surge ela: a pioneira. Os estandartes centenários vermelhos e azuis da Vizinha Faladeira ganham as ruas, reafirmam seu papel de protagonismo ao se encontrarem com um bamba pioneiro, assim como ela, e entendem o seu papel social enquanto uma das maiores instituições culturais deste país, como grêmio do gueto, do Morro da Providência, e convidam os bambas que fizeram parte dessa história a retornarem em nosso desfile centenário, e os foliões que hoje dão continuidade a esse legado, para promoverem, enquanto verdadeiros herdeiros de Ciata, a coroação do nosso Obá. É hora do nosso altar de sambistas imortalizar mais um nome em nossa história: João da Baiana. O Obá da favela, do samba, da Vizinha Faladeira de volta ao seu terreiro.

Salve o pavilhão centenário que jamais silenciou sua voz! Salve o Obá que fez do batuque liberdade!

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