Do território à cena: projeto encerra ciclo e reafirma o teatro como ferramenta de transformação no mês das mulheres
Do território à cena: projeto encerra ciclo e reafirma o teatro como ferramenta de transformação no mês das mulheres
Com quatro oficinas no Barreiro e uma roda formativa online, iniciativa mobiliza mulheres negras, periféricas e pessoas não binárias em processos de criação, escuta e protagonismo coletivo
Após um mês de encontros intensos no Barreiro, o projeto “Seu Lugar no Mundo – Teatro Político e Popular” chegou ao seu encerramento com uma roda formativa online realizada no dia 1º de abril. A iniciativa, que promoveu quatro oficinas gratuitas ao longo de março, reuniu mulheres negras, periféricas e pessoas não binárias em experiências de criação, escuta e transformação por meio da arte.
Realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, por meio do edital Descentra, o projeto propõe um espaço de criação acessível e acolhedor, onde as experiências de vida das participantes se tornam matéria-prima para a construção artística. Inspirado na metodologia do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, o projeto percorreu diferentes centros culturais da região — Vila Santa Rita, Bairro das Indústrias, Lindeia Regina e Urucuia — consolidando um percurso formativo que uniu prática teatral, reflexão crítica e fortalecimento de vínculos comunitários.
ENCERRAMENTO E CONTINUIDADE DO PROCESSO
O ciclo foi finalizado com uma roda de conversa online, mediada por Gabriela Chiari e Meire Regina, referências na prática e pesquisa do Teatro do Oprimido. O encontro ampliou as discussões iniciadas nas oficinas e trouxe novas camadas de reflexão sobre opressão, corpo, memória e transformação.
Durante a roda, Gabriela destacou a potência do teatro como ferramenta viva e em constante expansão, e também provocou a escuta das participantes sobre o impacto da experiência: “O Teatro do Oprimido é uma árvore com muitas ramificações. Ele é praticamente infinito. A gente aprende todos os dias e se apaixona cada vez mais por esse caminho de transformação. A ideia aqui é ouvir quem viveu esse processo, entender o que mexeu, o que atravessou, e como isso pode seguir reverberando”, afirma.
Já Meire Regina trouxe uma dimensão profundamente pessoal e política da metodologia. “Quando a gente transforma uma história real em cena, ela deixa de ser só nossa, ela passa a ser do mundo. E isso muda tudo. O Teatro do Oprimido faz a gente recalcular rotas. E quando uma jovem como a Sabrina se apropria disso e multiplica, é como sementes sendo espalhadas”, completa.
A IDEIA QUE VIROU PROJETO
Idealizado por Sabrina Dourado, o projeto nasceu a partir de uma experiência pessoal com o exercício “Seu Lugar no Mundo”, dentro do próprio Teatro do Oprimido. “Quando eu fiz esse exercício, virou uma chavinha na minha vida, eu comecei a pensar onde eu estava na sociedade. E esse exercício me fez pensar onde eu poderia estar também. Perspectiva de futuro (raros momentos em que eu consigo ter). E aí eu pensei que eu queria que todo mundo fizesse esse exercício, que tivesse a oportunidade, porque me abriu muitas portas e muitas janelas na cabeça”, conta. Sabrina destaca que, embora tenha partido de reflexões sobre classe social, o processo se abriu para múltiplas interpretações. “Cada pessoa entendeu o exercício de um jeito. E isso é o mais potente, abrir caminhos diferentes dentro de cada um”, explica.
ACESSO E TRANSFORMAÇÃO
Um dos pilares do projeto foi a acessibilidade e o cuidado com a diversidade das participantes. As oficinas contaram com audiodescrição, intérprete de Libras e espaço acolhedor para mães com crianças, garantindo a presença de diferentes corpos e vivências.
A participante Paola Ariane, mulher trans com deficiência visual, destacou a importância dessa estrutura. “Aqui, pessoas com deficiência podem se sentir bem, se sentir presentes. No caso, tá tendo audiodescrição pra quem tem deficiência visual, tendo intérprete de línguas pra pessoas que são deficientes auditivas. Então essa equipe tá trazendo várias pessoas, tem um auxiliar brincante, as mães podem vir e elas estão podendo acessar a arte. Então isso é muito bom, poderia ter mais projetos como esse, não só aqui, como em outros lugares também, outras regiões de Belo Horizonte. E eu tô adorando mesmo, é uma oportunidade muito grande estar aqui, e eu agradeço a vocês”, reforça.
Ao longo de sua realização, o projeto evidencia a importância de iniciativas culturais que criam espaços acessíveis de escuta, expressão e troca dentro dos próprios territórios. Ao apostar no Teatro do Oprimido como ferramenta, o Projeto contribui para ampliar o acesso à arte e fortalecer processos coletivos de reflexão sobre as experiências vividas pelas participantes.
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