Ator trans interpreta personagem cis em longa nacional e indicação amplia debate sobre escolha de elenco no cinema

 

 Ator trans interpreta personagem cis em longa nacional e indicação amplia debate sobre escolha de elenco no cinema

Caso evidencia como decisões de produção podem ampliar o acesso de artistas trans a papéis diversos no audiovisual

Foto: Divulgação/Meraki

A participação do ator Kaik Okada na interpretação de um personagem cisgênero em um longa-metragem nacional abre espaço para discutir novas possibilidades na escolha de elenco no audiovisual brasileiro. A sugestão para a construção desta personagem partiu da Meraki, um hub de agenciamento e produção de elenco, que decidiu apresentá-lo para o teste mesmo sem a solicitação inicial de um ator trans para o papel. Em um setor historicamente marcado por estereótipos e pela limitação de artistas trans a narrativas centradas exclusivamente em sua identidade de gênero, o caso aponta para uma possibilidade urgente, mas ainda pouco comum: a presença de atores em papéis diversos nos quais essa característica não é o eixo central da narrativa.

“Acreditamos que atores e atrizes trans possam atuar e contribuir em personagens que não permeiam a identidade de gênero do artista", diz Danilo Rowlin, sócio-fundador e diretor comercial da Meraki.

O interesse de Okada pela atuação surgiu ainda na infância. A possibilidade de viver diferentes histórias por meio dos personagens foi o que o levou a se aproximar do teatro e, posteriormente, do audiovisual. Para Okada, o convite para o teste representou mais do que uma oportunidade profissional: foi a possibilidade concreta de ocupar um espaço tradicionalmente negado a artistas trans no audiovisual. “Desde que me entendo por gente, meu sonho é ser ator. Estamos evoluindo em várias questões, mas ainda sinto falta do real pertencimento sem a necessidade da constante luta probatória de nossa capacidade”, afirma.

A proposta ocorreu após o ator integrar o projeto TransFree, criado pela Meraki, projeto voltado à ampliação da pluralidade no setor. Durante o cadastro do ator, a produtora decidiu indicar Okada para o teste, compreendendo que estava dentro das qualificações solicitadas pela direção de elenco, não limitando o pedido apenas à identidade de gênero que a personagem poderia vir ter. O que começou como uma sessão fotográfica gratuita para cadastro profissional evoluiu para um convite para teste, posteriormente aprovado, para a produção atualmente em desenvolvimento. Para Kaik, iniciativas como o TransFree alteram de forma estrutural o acesso ao mercado. “Muda tudo. O projeto traz a possibilidade para todes”, relata.

O episódio evidencia ainda uma lacuna histórica na indústria. “A partir de registros públicos e notícias do setor, não encontramos precedentes de um homem trans interpretando um personagem que, pela nossa leitura, apresenta indicativos de ter identidade cisgênera no cinema nacional. O audiovisual tem não apenas o poder de contar histórias, mas também de reparar silêncios históricos”, afirma Rowlin.

Os dados indicam que o problema vai além de um caso isolado. De acordo com nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicada em outubro de 2025, apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente em 2023, taxa 6,8 pontos percentuais inferior à da população geral. O estudo também aponta que pessoas trans inseridas no mercado formal recebem, em média, 32% menos que a média nacional, diferença que persiste mesmo entre profissionais com ensino superior completo, cujo rendimento é 27,6% inferior ao de trabalhadores não trans com o mesmo nível de escolaridade.

No setor audiovisual, embora não haja levantamento público específico, dados apresentados pelo projeto TransFree indicam que a participação de pessoas trans nas vagas formais do segmento não chega a 1%, evidenciando barreiras estruturais de acesso ao setor.

Ao refletir sobre os desafios ainda presentes no setor, Okada aponta que a transformação passa também pela forma como pessoas trans são percebidas no ambiente profissional. “Pode parecer simples, até estranho de dizer, mas tudo começa pela nossa humanização, que está ligada ao respeito e também à possibilidade do erro. Muitas vezes somos vistos com tanta distância das pessoas cis que sentimos que precisamos nos esforçar o dobro para que algo aconteça. E não podemos errar, porque parece que a nossa participação ainda é tratada como um favor”, afirma.

Para Rowlin, iniciativas como o TransFree buscam ampliar as oportunidades. “O objetivo é que, em algum momento, isso deixe de ser notícia. Um artista trans é, antes de tudo, um artista e deveria poder disputar papéis como qualquer outro profissional. Estamos trabalhando para que esse dia chegue logo e para que um ator não seja recusado por ser quem é, mas avaliado pelo seu talento e suas qualificações”, completa.

Ainda que a escalação não elimine as desigualdades do setor, indica uma mudança concreta nos critérios de avaliação — mudança que começa no primeiro degrau da cadeia: na decisão de quem apresenta e indica os artistas para os projetos. Ao permitir que um ator trans interprete um personagem cuja identidade de gênero não é o eixo central da narrativa, o cinema nacional ensaia um deslocamento de paradigma: da representação simbólica para a integração estrutural.
 

Sobre a Meraki

A Meraki é um hub de produção audiovisual que nasceu para impulsionar a pluralidade, inovação e representatividade no mercado. Fundada há quase dez anos pelos irmãos Danilo e Jacqueline Rowlin, a empresa consolidou sua identidade com um modelo de trabalho horizontal, criativo e acolhedor, atendendo desde grandes marcas até produções independentes. Atualmente, possui três frentes de atuação: agenciamento artístico, produção e direção de elenco e produção geral, reunindo em uma mesma estrutura talentos, equipes e criação. O nome Meraki vem do grego e carrega o propósito de fazer algo “com alma, criatividade e amor”. A empresa mantém o lema de produzir, realizar e humanizar, fortalecendo narrativas plurais. Entre seus compromissos centrais, estão a inclusão, o apoio a profissionais da periferia e pessoas trans, além do combate a qualquer tipo de preconceito.


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