SESC BELENZINHO TRAZ O ESPETÁCULO “TRAVESSIA” E FAZ DO PALCO BALSA À DERIVA EM MEIO AO NAUFRÁGIO CIVILIZATÓRIO
Elenco multiétnico reúne, no espetáculo de Gabriela Mellão, naufrágios da história e memórias pessoais para refletir sobre exclusão e desumanidade no mundo contemporâneo
Uma balsa flutua à deriva no espetáculo Travessia, que estreia dia 1º de abril no Sesc Belenzinho. Ao mesmo tempo metáfora do mundo contemporâneo e ferida aberta da história, ela remete a um naufrágio real que expôs a brutalidade das engrenagens coloniais e da desigualdade social.
Em 1816, a fragata francesa Medusa naufragou na costa da África após a negligência de um capitão nomeado por influência política. Sem botes suficientes, reservados aos oficiais e homens brancos, cerca de 150 pessoas foram abandonadas em uma balsa improvisada. Fome, sede, violência e desespero reduziram o grupo a apenas 15 sobreviventes após 2 semanas. O episódio chocou a França e foi transformado por Théodore Géricault no monumental quadro A Balsa da Medusa (1818), uma denúncia da desumanização produzida por sistemas que hierarquizam vidas e naturalizam o descarte humano. Em Travessia, essa imagem histórica torna-se um dispositivo dramatúrgico para refletir os naufrágios civilizatórios do presente: migrações forçadas, fronteiras militarizadas, polarização ideológica e os mecanismos de poder que decidem quem merece proteção e quem pode ser lançado ao mar.
“Não interessava fazer uma reconstituição histórica da balsa”, explica a autora e diretora Gabriela Mellão. “O que nos moveu foi colocar essa imagem em fricção com as histórias reais dos artistas em cena, criando um espelhamento entre o naufrágio colonial e os naufrágios contemporâneos que seguimos produzindo.”
O espetáculo nasceu de um processo colaborativo de quase dois anos entre Mellão, atores reconhecidos da cena brasileira — como Miriam Rinaldi, Vitor Britto e Rodrigo Bolzan — e artistas em situação de deslocamento: Dani Mara (brasileira indígena), Prudence Kalambay (República Democrática do Congo), Mariama Bintu Bah (Gâmbia/Senegal), Mario Tadeo (boliviano indígena), Victor Gee Rosales (Venezuela) e Shambuyi Wetu (República Democrática do Congo).
A diversidade, aqui, não aparece como tema ou ilustração: é o próprio método de criação. “Travessia só existe porque corpos, histórias e cosmologias muito diferentes tiveram uma troca real, sustentando conflitos e visões de mundo distintas em nome de uma criação conjunta”, afirma Mellão.
A dramaturgia constrói um tecido de camadas narrativas que se entrelaçam. O episódio da Medusa dialoga com depoimentos autobiográficos, fragmentos documentais, tragédia grega e mitologia indígena. Em uma de suas linhas, atores disputam os papéis de Clitemnestra e Egisto em uma audição fictícia, revelando tensões entre identidade, representação e poder. Situações envolvendo filas burocráticas, discursos de inclusão, mercantilização da diversidade e afetos administrados por lógicas de mercado atravessam a cena.
Uma dimensão mítica também irrompe na narrativa: a figura de uma serpente ancestral engolida por um corpo humano, aprisionada em um sistema urbano que não reconhece sua língua, seu ritmo ou sua cosmologia. Condenada a adaptar-se para sobreviver, essa imagem alegórica traduz a violência silenciosa que opera quando indivíduos e culturas precisam caber em regras que negam suas cosmogenias.
Elementos da tragédia grega estruturam a dramaturgia. Como nos dramas antigos, os personagens se veem confrontados por forças maiores do que suas vontades individuais, engrenagens políticas e sociais que frequentemente determinam sua sorte. O coro, porém, é reinventado. Em vez de representar uma comunidade unificada, torna-se um corpo múltiplo. Português, espanhol, francês e línguas africanas e indígenas atravessam a cena, compondo uma polifonia que encarna um tempo em trânsito.
Visualmente, o espetáculo cria quadros vivos inspirados na pintura de Géricault, transformando os atores em dispositivos narrativos e plásticos. Não há protagonismo individual: o que se ergue em cena é um coletivo heterogêneo que sustenta a balsa, questiona o poder e humaniza as diferenças.
A pesquisa que deu origem à obra nasce do legado intercultural do diretor inglês Peter Brook, cuja prática teatral buscou reinventar o palco a partir do encontro real entre culturas. Em Travessia, esse impulso é revisitado à luz das urgências do século XXI.
O espetáculo transforma o teatro em um espaço de atravessamento entre culturas, tempos históricos e modos de existir. Um laboratório sensível onde ainda se pode experimentar outros pactos de convivência, reimaginar o futuro e, mesmo à deriva, recusar a lógica que lança sempre os mesmos corpos ao mar.
O espetáculo convida o espectador a embarcar na balsa e o convoca a refletir sobre as posições que ocupa dentro dela. Quem sabe, inspirando o ato praticado no próprio processo da obra: a insistência em reconhecer o outro em sua plena humanidade.
Sinopse: “Travessia” entrelaça a história real que deu origem ao célebre quadro “A Balsa de Medusa”, de Théodore Géricault, com o drama de um grupo de atores de culturas diversas que, ao disputar o papel de Clitenmnestra e Egisto, vê-se lançado às águas revoltas de uma sociedade que teima em moldar corpos, vozes e destinos. Entre testes teatrais, naufrágios pessoais e coletivos, o espetáculo navega rumo ao direito de cada um existir sem concessões.
Ficha técnica
Dramaturgia de Gabriela Mellão a partir de criação coletiva Direção de Gabriela Mellão Serviço
Espetáculo: Travessia De 1 de abril a 3 de maio de 2026. Quinta a sábados, às 20h. Domingos, às 18h30. Estreia na quarta 1/4 às 20h
SESC BELENZINHO Endereço: Rua Padre Adelino, 1000. Belenzinho – São Paulo (SP) Telefone: (11) 2076-9700 Estacionamento De terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h. Valores: Credenciados plenos do Sesc: R$ 8,00 a primeira hora e R$ 3,00 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 17,00 a primeira hora e R$ 4,00 por hora adicional.
Transporte Público Metro Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400m)
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INFORMAÇÕES À IMPRENSA
Sesc Belenzinho | Priscila Dias Tel.: (11) 2076-9762 | imprensa.belenzinho@sescsp.
Trechos da dramaturgia
“Em um mundo onde confiança é preciosidade que poucos podem pagar, em quem confiar? Onde se abrigar quando estão todos dispostos a apunhalar? A traição, sombra à espreita na escuridão, persegue, ameaça Um mar de rostos indistintos Em cada um, um predador em potencial Agamenons! Somos todos marionetes do destino, arquitetos de nossas quedas, cúmplices de silêncios convenientes, incapazes de escapar do infortúnio de nossas más escolhas e das injustiças que fingimos não ver”
“Homem ao mar! Socorro, homem ao mar!!”
“O que é o amor se não o beijo entre estranhos? Encontro entre estrangeiros? Você é o avesso de mim Não fala minha língua Eu não falo a sua Nossas línguas nos dão vida Acendem a chama do mundo Consolam as dores do tempo
Você é o estranho que se tornou parte de mim Você é o estrangeiro que me repatriou”
Gabriela Mellão - autora e diretora Entre seus espetáculos destacam-se “Mutações”, peça dirigida por André Guerreiro Lopes pela qual foi vencedora do prêmio Cenym de Teatro Nacional em 2024 na categoria Melhor Texto e indicada ao prêmio APCA como melhor dramaturgia de 2023. É jurada dos Prêmios Shell e APCA de Teatro. É crítica da Revista Bravo! desde 2006. Foi repórter teatral da Folha de São Paulo entre 2008 e 2012, além de curadora de diversos festivais e editais.
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