Mulheres pretas nas telas: entre estereótipos e o direito de serem múltiplas
No mês da mulher, artistas refletem sobre presença, poder de decisão e a necessidade de transformar narrativas
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Mulheres pretas querem mais do que visibilidade nas telas. Elas questionam estereótipos, a limitação de papéis, a ausência em espaços de decisão e defendem que a transformação passa também por quem escreve e decide essas histórias. Em meio às discussões do Dia Internacional da Mulher, o debate ganha novos contornos ao colocar em pauta não apenas presença, mas permanência e representatividade coletiva. Mais do que ocupar espaços, elas questionam quais histórias estão sendo contadas — e por quem.
O tema foi debatido na primeira edição do projeto EM CENA, promovido pela Meraki, hub de produção que atua na inserção de profissionais plurais nas telas. O encontro reuniu as artistas Carolina Clarkson, Anne Caroline, Isis Broken e Sílvia Maria, com mediação de Camilla Veles. Ao longo do debate, elas compartilharam relatos sobre estereótipos, mercado, autoria e os desafios de permanecer em espaços historicamente marcados pela exclusão.
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Isis Broken - Divulgação Meraki |
Representatividade que para na superfície
Após o aumento de oportunidades voltadas à diversidade em 2020 e 2021, o volume de trabalhos diminuiu. Para a atriz e criadora de conteúdo Anne Caroline, embora tenha havido avanços, a presença ainda é pensada de forma limitada. “Nós (Carolina Clarkson e Anne Carolina) quase nunca conseguimos trabalhar juntas. Era sempre uma lógica de ‘uma modelo plus size, uma modelo negra e pronto, está resolvida a representatividade’. Era como se bastasse cumprir uma imagem”, destaca.
Ainda assim, Anne ressalta o impacto simbólico dessa presença: “Sim, fomos usadas pela indústria. Mas também servimos de referência para muitas mulheres e muitas crianças que nos viam como possibilidade. Eu não trabalho só por mim”.
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| Anne Carolina - Divulgação Meraki |
Para a atriz e modelo Carolina Clarkson, que estreou recentemente na série Vermelho Sangue, do Globoplay, o problema também está na repetição de papéis. “Eu estou cansada de ver mulheres pretas sempre no mesmo estereótipo. Parece que, se você é uma mulher preta, precisa falar só sobre racismo. Se é uma mulher gorda, tem que falar só sobre o seu peso. Eu sou uma mulher preta, gorda, com vitiligo, LGBT. Eu sou tudo isso, mas eu sou muito mais que isso. Eu não sou somente isso”.
A discussão se estende aos bastidores. “Às vezes, a representatividade para na superfície. Ela fica só na campanha, na imagem final. Mas quando você olha quem está por trás das câmeras, a equipe é totalmente branca. Existe uma desconexão muito grande entre o que aparece e quem realmente constrói aquilo”, analisa a mediadora Camilla Veles.
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Camilla Veles - Divulgação Meraki |
Visibilidade pontual, ausência estrutural
A atriz Isis Broken, premiada por sua atuação como Corina Castelo em uma novela das seis da Rede Globo, avalia que a resistência não está necessariamente na audiência. “Eu acho que o público já está super aberto a novas caras, novos conceitos, novas construções. Mas o audiovisual ainda está caminhando a passos muito lentos”, afirma. Existe também um recorde de etnia, pois, os corpos trans ainda no audioivisual tem a sua representação limitadas ao gênero dos artistas que estão naquele determinado papel, o que não ocorre quando falamos de atores e atrizes cis para interpretar qualquer personagem. Para a atriz, o fato de “ainda estarmos discutindo transfake em 2026” revela a lentidão das mudanças no setor.
Segundo ela, o problema está na repetição de padrões narrativos. “Toda vez que é uma história de pessoas trans, é sempre um lugar de violência, onde a personagem precisa se rasgar por um amor ou correr e sofrer muito para o afeto acontecer. Parece que a gente não pode ser simplesmente. Cadê as histórias sobre mães travestis? Por que eu não posso fazer uma mãe no cinema, sendo que eu sou mãe na vida real?”, questiona.
Isis também chama atenção para os bastidores. “98% dos projetos que eu fiz não tinham pessoas trans trabalhando comigo. Eu sempre fui a única. É cansativo todo dia ter que dizer ‘meu pronome é ela’. Sou uma mulher”.
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Sílvia Maria - Divulgação Meraki |
O futuro é ancestral
Com mais de 30 anos de atuação na formação educacional e presença ativa em discussões sobre racismo e gênero, Sílvia Maria afirma que a transformação passa por quem escreve as histórias. “Sabe quais histórias precisamos? Das histórias escritas por nós. Histórias escritas por esses corpos que eles consideram indesejáveis”.
Ao refletir sobre permanência e futuro, Sílvia amplia o debate para a dimensão histórica da luta. “A gente precisa pensar o futuro sempre olhando para o passado. O futuro é nosso e ele realmente é ancestral”, finaliza.
A frase ecoa como síntese do que atravessou toda a conversa: não se trata apenas de corpos dissidentes aparecerem nas telas, mas de quem tem o poder para decidir, escrever e reafirmar a permanência desses corpos nesses projetos.
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