Jovem cineasta periférico dirige produção internacional, gravada na Itália

 Jovem cineasta periférico dirige produção internacional, gravada na Itália



O cineasta Ben-Hur Nogueira (24), cria do Morro das Pedras, região Oeste de Belo Horizonte, produz seu quinto trabalho no cinema e desta vez atravessa o Atlântico e vai dirigir a obra na cidade de Turim, na Itália. O filme intitulado “Primavera per Pasolini” (Primavera para Pasolini) aborda temas como saudade, de casa, de amigos ou de familiares, memória e redenção.


Para a produção do audiovisual, Ben-Hur se inspirou na obra italiana Il Decameron, escrita pelo italiano Giovanni Boccaccio, no século XIV e adaptada para o cinema em 1971, pelo também italiano, Pasolini, além de outras referências ao cinema de Kurosawa e Carlos Reichenbach. O filme, que presta tributo ao cinema italiano de Pasolini, acompanha dez pessoas ao redor da Europa, lidando com a saudade e memória dentro de um curto espaço de tempo e será gravado em português, inglês e italiano.


“O filme será uma carta de amor ao cinema italiano, principalmente o de Pasolini e Vittorio de Sica. Essa co-produção Brasil-Itália marca uma nova fase na minha vida já que é a primeira vez que que vou dirigir uma obra fora do Brasil. Esse será meu maior trabalho depois de Andança, que estreou no final do ano passado”, celebra o cineasta.


“Primavera para Pasolini” tem previsão de estréia para o fim de 2026 e será lançado simultaneamente com “Requiém para Narciso”, outro projeto de Ben-Hur para este ano, que será filmado após a produção de “Primavera para Pasolini”. “Apesar de ambas obras serem filmadas em sequência, “Réquiem para Narciso” pertence à trilogia Linhas de Soco, enquanto “Primavera para Pasolini” é um trabalho à parte na minha filmografia”, explica Ben.


O cineasta reforça a importância do intercâmbio entre as culturas latinas e o quanto essa produção tem significado para ele e outras pessoas periféricas que também realizam trabalhos independentes, sejam nas artes ou em qualquer segmento. 


“Eu não posso medir o mundo com a minha régua, mas acredito muito na força do trabalho e oportunizar situações favoráveis para pessoas periféricas é potencializar o que existe de melhor nas comunidades. Temos talentos incríveis nas quebradas e para mim, jovem negro, periférico, chegar ao patamar de produzir uma obra fora do país é ratificar que só precisamos de oportunidades e que elas sejam dadas”, celebra o diretor. 


Sobre Ben-Hur Nogueira

Natural de Belo Horizonte, Ben-Hur Samuel Santos Nogueira é nascido e criado no Morro das Pedras, região Oeste da capital mineira e já foi vendedor de cachorro quente, ambulante, garçom, servente de pintor e até professor de inglês. Sua paixão pelo cinema aconteceu por acaso. Sua mãe, a doutora honoris causa e ativista, Juthay Nogueira, sempre o estimulou a leitura desde muito novo. 


No ensino médio, entre os anos de 2018 e 2019, Ben começou a dar oficinas de cinema para os alunos da sua escola, a Escola Estadual Olegário Maciel. Quando fez 18 anos, no auge da pandemia, Ben ganhou sua primeira câmera de sua mãe. Ele criou o documentário Pandemias, relatando a vida dentro da favela durante o período da crise sanitária. 


Pandemias já universidades fora do Brasil,foi selecionada para vários festivais de renome como o CineBH e recebeu um reconhecimento internacional em 2023 no Varsity Film Expo no Zimbabwe. No ano de 2023, Ben-Hur e outros alunos da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) criaram a Mostra de Cinema Preto Periférico, que busca valorizar a arte cinematográfica produzida dentro das favelas, além de criarem o Prêmio Marku Ribas em 2024, em homenagem ao multiartista mineiro Marku Ribas, falecido em 2013.


Depois de Pandemias, Ben-hur também dirigiu as obras Arrabalde Corsário, filme que faz ode ao cinema do gaúcho Reichenbach e que foi exibido para alunos da Universidade de Chicago. Ben foi homenageado na Primeira Virada Cinematográfica de Ouro Preto e também recebeu uma moção de aplausos pelo conjunto da obra de seu trabalho no cinema periférico contemporâneo. 


Ainda em 2025, ele recebeu atenção internacional da revista Meer, uma plataforma digital que colocou Ben entre os novos cineastas brasileiros a se dar atenção nos próximos anos e, no mesmo ano dirigiu seu terceiro documentário, Andança, que recebeu menção honrosa no festival jamaicano Films that move em setembro de 2025.

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