Como em um tribunal, Kiko Rieser estreia a inédita NÓS, OS JUSTOS, um retrato contundente da cultura do cancelamento. Dia 6/3 no Teatro Itália

 Kiko Rieser estreia com a Companhia Colateral

a inédita Nós, os Justos, um retrato contundente

da cultura do cancelamento. Estreia no dia 6/3

 

O novo texto do dramaturgo e diretor ocupa o palco do Teatro Itália a partir de 6 de março, transformando rumores em uma grande empresa em uma parábola sobre

o justiçamento e a cultura do cancelamento na contemporaneidade.
No elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú


Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio, Thamiris Mandú e Camila dos Anjos. Crédito: Ronaldo Gutierrez

 

Vivemos um tempo em que a linha entre fazer justiça e praticar o justiçamento tornou-se perigosamente tênue. Diante de acusações, boatos e versões conflitantes, o veredito costuma chegar antes das provas, impulsionado pela pressão coletiva e pela necessidade imediata de apontar culpados. É esse cenário que serve de base para Nós, os Justos, nova peça escrita e dirigida por Kiko Rieser e encenada com a Companhia Colateral, que estreia dia 6 de março, sexta-feira, às 20h, no Teatro Itália (Av Ipiranga, 344). Sessão para convidados será no dia 9 de março.
 

Ambientada em uma grande empresa, a obra acompanha o impacto de um rumor sobre a conduta de um funcionário e as consequências que se espalham pelos corredores, contaminando relações, decisões e reputações. Mais do que retratar um conflito individual, o espetáculo investiga como a cultura do cancelamento opera no plano presencial, no convívio cotidiano, corroendo o direito à defesa e o espaço da escuta.

 

Escrita originalmente em 2018, quando a "cultura do cancelamento" começava a se desenhar, a peça atravessou quase uma década sem modificações substanciais — exceto pela incorporação do conceito de compliance, hoje central no mundo corporativo. O texto reflete um tempo em que o trânsito instantâneo de informações redesenhou o impacto de casos de justiçamento, ecoando episódios emblemáticos da vida real onde o desejo de vingança eliminou o direito à defesa. A encenação reforça essa temática ao colocar o espectador diante de uma estrutura que mimetiza um julgamento, prendendo a atenção pela tensão constante. Rieser confirma que essa percepção de um tribunal em cena é o cerne da montagem. “A gente tem a alegoria na peça dos quatro componentes principais do tribunal: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha. A encenação foi pensada para que cada um cumpra esse papel simbólico, transformando o palco nesse espaço de julgamento que não oferece saída fácil ao público.”

 

Guerra de narrativas

 

Na trama, boatos sobre o suposto comportamento inadequado de um funcionário desencadeiam um processo interno de apuração. O que deveria ser um procedimento objetivo rapidamente se transforma em uma disputa de versões, interesses e percepções, onde a verdade deixa de ser um dado e passa a ser uma construção instável. Sem provas conclusivas, o caso passa a ser definido menos pelos fatos do que pela força dos discursos, sacrificando a complexidade em favor de interpretações simplificadas.

Kiko Rieser pontua que a peça nasce desse "caldeirão de emoções genuínas combinadas com a falta de racionalidade". Para o diretor, o cancelamento muitas vezes nasce de um clamor legítimo por justiça em contextos em que as instituições falham, mas o risco surge quando esse anseio se converte em desejo de punição imediata.

 

O espetáculo evidencia como, nas guerras de narrativas da contemporaneidade, importa menos o lastro com a realidade do que a identificação imediata com uma versão conveniente. Trata-se de um retrato de uma sociedade que perdeu a capacidade de escuta: “A peça não entrega respostas; apenas as oferece dialeticamente, convocando à escuta antes de qualquer tomada de posição. Vivemos um tempo de extremos, em que o ato de julgar segundo princípios próprios tornou-se naturalizado”, conclui Kiko.

 

Manada invisível

 

Um ponto importante da peça é a presença invisível de um quinto personagem: uma espécie de coro formado pelos demais funcionários da empresa. Apelidados ironicamente de “a manada”, eles representam a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos.

 

“A gravidade de temas como perseguição e abuso de poder exige equilíbrio e menos paixão”, pontua Rieser. “Quando a identificação imediata com uma história passa a importar mais do que o compromisso com a realidade, o risco de injustiça se torna enorme.” Ao evidenciar esse comportamento coletivo, o espetáculo revela como o desejo de “fazer justiça” pode facilmente se transformar em violência simbólica e exclusão. O diretor espera, por fim, que o público não reproduza esse comportamento ao sair do teatro: “O nosso intuito é fazer as pessoas saírem com a dúvida plantada na cabeça. Espero que sentem à mesa para comer sua pizza e continuem refletindo. Que as pessoas ponderem muito antes de tomar qualquer posição e não reproduzam o comportamento de bando que vemos diariamente nas redes sociais, em campanhas de cancelamento que prejudicam todos os envolvidos.”

 

Sobre a direção: matar o dramaturgo

 

Dirigir o próprio texto exige um exercício de desapego. Rieser afirma que, na sala de ensaio, "mata o dramaturgo" em prol da potência cênica. Um conceito fundamental na encenação dos Justos é que todos os atores, depois que entram em cena, não saem mais e ficam coexistindo em planos paralelos, mesmo que não estejam na ação dramatúrgica da cena. “Eu tento sempre distanciar muito a figura do diretor da figura do dramaturgo. O dramaturgo tem um olhar de encenador, mas quando eu vou para a sala de ensaio eu 'mato' o dramaturgo. Vira e mexe eu corto coisas, modifico coisas bruscamente e brinco para não contarem para o autor. Se eu tiver que realocar uma cena, vou ter que reescrever; a obra tem que estar a serviço da cena”, revela.

 

Sinopse longa

 

Em uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário passam a circular entre os colegas, provocando um clima crescente de desconfiança e hostilidade. Diante da pressão interna, a direção instaura uma sindicância para apurar os fatos.
 

O processo, no entanto, revela-se tudo, menos objetivo. Cada depoimento carrega ambiguidades, silêncios e interesses ocultos. As versões não se contradizem frontalmente, mas divergem em intenções, interpretações e motivações.
 

À medida que a investigação avança, torna-se cada vez mais difícil separar fatos de narrativas, convicções de conveniências. Pequenos detalhes ganham peso desproporcional, informações do passado ressurgem e relações pessoais interferem nas decisões.

Todos acabam envolvidos em um processo que foge ao controle, no qual são tragados por uma bola de neve de consequências imprevisíveis.
 

Sinopse curta
 

Em uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário se espalham e fazem com que seus colegas exerçam forte pressão por sua demissão. É instaurada uma sindicância, onde nada do que é revelado é absoluto, tornando-se impossível tomar partido de qualquer lado sem possibilidade de erro. Todos os personagens são tragados por uma bola de neve que trará consequências imprevisíveis.

 

Ficha Técnica

 

Texto e direção: Kiko Rieser. Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú. Assistência de direção: Letícia Calvosa. Stand-in: Natália Moço. Cenografia: Bruno Anselmo. Desenho de luz: Rodrigo Palmieri. Figurino: Marichilene Artisevskis. Música original: Mau Machado. Preparação corporal: Bruna Longo. Consultoria de queda e dublê: Aline Abovsky. Cenotecnia: Casa Malagueta, Alício Silva, Danndhara Shoyama, Igor b. Gomes, Larissa Baldissera, Shampzss e André Souza. Costura: Judite Gerônimo de Lima. Operador de som e luz: Rodrigo Palmieri. Fotografia: Ronaldo Gutierrez. Designer gráfico: Lucas Sancho. Assessoria de imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira. Gestão de mídias sociais e tráfego pago: CulturaLab. Produção: Rieser Produções e Rodri Produções. Direção de produção: Jessica Rodrigues. Coordenação de produção: Carolina Henriques. Produção executiva: Diego Andrade e Julia Terron. Assistente de produção: Diego Leo. Realização: Companhia Colateral.

 

Serviço

 

Nós, os Justos

Teatro Itália –Av. Ipiranga, 344 – Centro. Estreia: 6 de março, sexta-feira, 20hTemporada: até 26 de abril.

Sessões – Sextas e sábados, 20h, domingos, 19h. Ingressos: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia). Classificação indicativa: 14 anos.

 

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