ESTREIA 22/01 | Comédia farsesca "Entre a Cruz e os Canibais" transforma a fundação de São Paulo em sátira histórica | Teatro Arthur Azevedo | direção de Marcos Damigo

 Marcos Damigo retrata as origens de São Paulo em seu quinto espetáculo sobre a história do Brasil 

 

Comédia farsesca, Entre a Cruz e os Canibais explora o desajuste entre o projeto colonial e a realidade da Vila de São Paulo de Piratininga

Cena de Entre a Cruz e os Canibais - Foto: Heloisa Bortz


O espetáculo estreia na semana de aniversário de 472 anos de São Paulo; o dia 25 de janeiro marca a fundação da cidade em 1554

 

 

Com a proposta de fomentar novos imaginários, provocando outras percepções sobre o nosso passado, Marcos Damigo tem se dedicado a pesquisar e encenar peças sobre a história do Brasil. Seu novo espetáculo, Entre a Cruz e os Canibais, lança luz sobre a construção do mito bandeirante e, consequentemente, de São Paulo. O trabalho faz sua temporada de estreia no Teatro Arthur Azevedo (Av. Paes de Barros, 955 - Alto da Mooca, São Paulo, SP), entre os dias 22 de janeiro e 15 de fevereiro, de quinta a sábado, às 20h, e, aos domingos, às 19h. 

 

Em tom de comédia farsesca, a peça, que estreia na semana do aniversário de São Paulo, revisita essa narrativa histórica e sonda o desencontro entre o projeto colonial e a realidade da Vila de São Paulo de Piratininga. Damigo lembra que, por muito tempo, os bandeirantes não foram considerados heróis. Mas, atendendo a interesses de uma nova elite econômica que surgiu com o ciclo do café no século XIX, essa noção se modificou, culminando na criação de uma identidade para São Paulo atrelada à ideia de trabalho e desenvolvimento. 

 

Entre a Cruz e os Canibais é ambientada em 1599 e conta com quatro personagens em cena: o Juiz, o Governador-geral, o Vereador e o Procurador. 

 

A trama se inicia com a chegada do Governador-geral do Brasil Dom Francisco de Souza à pequena Vila de São Paulo de Piratininga, única aglomeração de europeus fora da costa, isolada pela íngreme Serra do Mar.

 

Os moradores estão revoltados com os mandos e desmandos do Juiz. Mas ele está apavorado com a iminência de um ataque indígena, pois o Vereador sequestrou tupis aliados. Já o Procurador, um degredado que foi salvo pelos tupis e tem portanto uma relação de proximidade com eles, espera que a vinda do Governador-geral faça valer a lei que proíbe a escravização de indígenas.

 

No entanto, Dom Francisco de Souza, ou “das Manhas” como indicava seu apelido, quer resolver os conflitos de maneira a atender melhor seus interesses. 

 

Descortina-se, assim, o maior paradigma do projeto nacional: justamente quando São Paulo tem seu primeiro impulso de progresso econômico, com o avanço dos bandeirantes pelo interior, é que seus moradores começam a explorar a mão de obra indígena em larga escala.

 

Encenação

 

“Encontramos no humor a melhor estratégia para questionar essa ideia de que os bandeirantes foram heróis. Por isso, criamos o que eu chamo de comédia de escárnio, que dialoga com uma tradição de comédias populares desde a Antiguidade, passando por grandes autores brasileiros também, como Arthur Azevedo e Martins Pena. Assim, conseguimos colocar em destaque o grotesco escondido sob o verniz de modernidade que mascara até hoje interesses abjetos”, comenta Damigo.

 

A primeira inspiração de Marcos, diretor e autor da montagem, foi há mais de 30 anos, quando leu o livro São Paulo Nos Primeiros Anos. 1554-1601 São Paulo No Século XVI, de Afonso D'Escragnolle Taunay. A obra clássica descreve as dificuldades enfrentadas pelos fundadores daquela que se tornaria a maior cidade das américas.

 

“Ao ler os relatos, logo pensei que aquelas histórias renderiam uma boa comédia. A tentativa de fundar uma civilização europeia em um lugar tão distante – e distinto – revela muitas das contradições do projeto colonial que estão presentes até hoje. Explorar isso pelo viés do humor é uma maneira de revelar os absurdos que foram sendo normalizados simplesmente porque nos acostumamos a eles”, afirma o diretor. 

 

Para escrever Entre a Cruz e os Canibais, Damigo contou com as consultorias do premiado dramaturgo e roteirista Luís Alberto de Abreu e do historiador Paulo Rezzutti, graças aos recursos de um edital PROAC do Governo do Estado de São Paulo em 2020. Para a montagem, o artista também contou com o apoio do historiador Rodrigo Bonciani.

 

Damigo lembra que a transformação do bandeirante em herói nacional é relativamente recente. “Com a Proclamação da República, em 1889, e o poder econômico conquistado por São Paulo por conta do café, eles passaram a ser cultuados na forma de estátuas, nomes de ruas, estradas e até o palácio do governo”, acrescenta. “E cada vez mais estamos olhando criticamente para essa ideia de desenvolvimento a qualquer custo.”

 

Nesse sentido, o espetáculo não pretende fazer uma reconstituição histórica, os personagens são tratados como tipos, e a trilha sonora, originalmente composta por Adriano Salhab, estabelece mais explicitamente essa relação entre passado e presente.

Tudo isso exige atores experientes: José Rubens Chachá (o Juiz), integrante do antológico grupo Ornitorrinco; Fábio Espósito (o Vereador), ator e palhaço com experiência internacional, incluindo trabalhos no Cirque du Soleil; Daniel Costa (o Procurador), indicado ao Prêmio Shell de Melhor Ator por Urinal, o Musical; e Thiago Claro França (o Governador-geral), artista presente em diversas criações da Cia. do Tijolo. “Eu disse aos atores, no primeiro dia de ensaio, que eles precisavam destruir o meu texto, no sentido de transformar a pesquisa histórica em jogo de cena e comédia. E nisso eles foram excepcionais”, ri Damigo.

O figurino desenvolvido por Marichilene Artisevskis incorpora elementos visuais do modernismo e da tropicália, movimentos que propuseram uma releitura da nossa história na busca por uma identidade nacional. O cenário é composto de lonas pintadas à mão pelos artistas e grafiteiros Jonato e Ever. Além deles, o cineasta guarani Richard Wera Mirim, morador da Terra Indígena Jaraguá, é responsável pela criação de um vídeo para o espetáculo.

 

O espetáculo tem patrocínio da Google Cloud através da lei municipal de incentivo, PROMAC.

 

Sobre Marcos Damigo
Marcos Damigo tem uma longa trajetória no teatro e na pesquisa com a história do Brasil: "Cabra", seu primeiro texto, escrito em 1997, ganhou o prêmio Nascente da USP. Seus dois últimos espetáculos foram "Leopoldina, Independência e Morte", que estreou em 2017 no Museu do Ipiranga em parceria com o SESC e realizou, só em São Paulo, três temporadas de sucesso, e "Babilônia Tropical", que estreou em 2023 e circulou pelas unidades do CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil, em vários estados do país, além de se apresentar em Recife em 2024 com apoio da Embaixada dos Países Baixos.

 

Sinopse

Um Juiz autoritário, que ninguém obedece, encontra o Vereador que estava desaparecido há meses e descobre que ele sequestrou ilegalmente tupis aliados, o que pode desencadear um ataque contra a pequena vila de 300 habitantes isolada do mundo europeu pela íngreme Serra do Mar. Quando o Procurador chega informando que o Governador-geral do Brasil está a caminho, tudo vira de pernas pro ar. Como receber um nobre português em condições tão precárias? Mesmo assim, esta que viria a ser, mais de 400 anos depois, a maior cidade das Américas, tem seu primeiro ímpeto de progresso econômico com a exploração da mão de obra indígena em larga escala.

 

Ficha Técnica

Dramaturgia, Direção artística, Desenho do cenário e Idealização: Marcos Damigo

Direção de Produção: Vi Silva

Direção musical: Adriano Salhab

Atores: José Rubens Chachá, Fabio Esposito, Daniel Costa e Thiago Claro França

Música ao vivo: Adriano Salhab e Thiago Claro França

Assistente de direção e Contrarregra: Warner Borges

Figurinista e Visagista: Marichilene Artisevskis

Iluminador: Ney Bonfante

Assistente de iluminação: Matheus Bonfante

Mobiliário cênico e Pintura do cenário: Jonato e Ever

Cenotecnia: Wanderley Wagner e Fernando Zimolo

Vídeos: Richard Wera Mirim e Santo Bezerra

Identidade visual: Santo Bezerra

Gestão de redes sociais: Flávia Moreira e Micaeli Alves (AuttivaLab)

Fotógrafa: Heloisa Bortz

Historiadores (consultoria histórica e palestrante): Paulo Rezzutti e Rodrigo Bonciani

Consultoria dramatúrgica: Luís Alberto de Abreu

Produção executiva: Carolina Henriques (Rodri Produções)

Assistente de produção: Sofia Augusto

Administração financeira: Gustavo Sanna

Assessoria de imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Daniele Valério e  Flávia Fontes de Oliveira

 

Serviço

Entre a Cruz e os Canibais
Duração:
 85 minutos Classificação indicativa: 12 anos Gênero: comédia musical

 

Data: 22 de janeiro a 15 de fevereiro de 2026

Temporada: Quinta a sábado, às 20h, e, aos domingos, às 19h

Acessibilidade: 23 de janeiro - Libras e audiodescrição

Local: Teatro Arthur Azevedo - Av. Paes de Barros, 955 - Alto da Mooca, São Paulo, SP
Estacionamento: gratuito (vagas limitadas)

Telefone: (11) 2604-5558
Ingresso: R$20,00 (inteira)/R$10,00 (meia entrada) | Bilheteria presencial aberta uma hora antes de cada sessão | Ingressos online: www.sympla.com

Link direto da Sympla: AQUI

 

Atenção: *Dias 22, 23, 24 e 25/01, em comemoração ao aniversário da cidade de São Paulo, o espetáculo será gratuito.


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