A Pantone acertou na cor de 2026? Especialista em colorimetria analisa a ‘Cloud Dancer’ e o impacto na comunidade afro-brasileira
A Pantone acertou na cor de 2026? Especialista em colorimetria analisa a ‘Cloud Dancer’ e o impacto na comunidade afro-brasileira
Investida do Shark Tank Brasil, Cáren Cruz alerta para a desconexão da tonalidade ‘Cloud Dancer’ (Pantone 2026), com a vivacidade das cores quentes do verão.
A Pantone anunciou sua escolha para a ‘cor do ano’ de 2026: o tom ‘Cloud Dancer’, próximo ao off-white. A decisão gerou controvérsia, já que o branco, associado à ideia de neutralidade, se distancia da valorização da identidade e da diversidade nas discussões sócio-políticas atuais.
O debate se estendeu para além do mundo da moda e do mês de dezembro. A cor branca, tradicionalmente associada à ausência de cores, levantou questões sobre como a sociedade lida com as tentativas de restabelecer padrões homogêneos – intensificada pela urgência na valorização da pluralidade cultural.
De acordo com a Investida da 9ª edição do Shark Tank Brasil, Comunicóloga e CEO da Pittaco Consultoria, Cáren Cruz, a escolha da ‘Pantone para 2026’ é desconexa com o contexto atual da sociedade. Segundo a especialista, "não é sobre o branco ser ‘ruim’. É sobre o que ele representa quando se torna a ‘cor do ano’, em um tempo em que estamos discutindo pluralidade, identidade e poder simbólico. O branco costuma ser vendido como neutralidade, como se fosse um lugar seguro e universal — mas esse ‘neutro’ quase sempre tem endereço cultural”, explica.
Para Cáren, existe uma dualidade à ser discutida na escolha da ‘Cloud Dancer’. “Na luz, o branco pode ser visto como soma. No pigmento e na matéria, o preto é quem concentra e guarda as cores. Só que o mais importante não é a física, mas sim o imaginário social que transformou o branco em pureza e o preto em ‘ameaça’. Quando a Pantone escolhe um tom próximo ao off-white, eu leio um convite (ou um alerta) para nós questionarmos: que tipo de paz é essa, e para quem? A cor não é o problema. O problema é o sistema de significado que ela ativa”, comenta.
A CEO também traça um paralelo entre o minimalismo branco e a cultura negra, que é marcada pela celebração das cores. "Eu não compro essa ideia de que branco é ‘neutro’. O branco tem história, marca e sentido — inclusive dentro das religiões de matriz africana, onde ele é fundamento, resguardo, rito e espiritualidade. A prática de vestir branco às sextas, por exemplo, não é estética: é orientação, cuidado e prática espiritual. Quando a Pantone elege um off-white, o debate que me interessa é: quando o branco vira ‘cor do ano’ com discurso de neutralidade, precisamos nos questionar que neutralidade é essa e quem define esse centro”, ressalta.
À frente da Pittaco Consultoria, Cáren afirma que há um impacto na escolha das cores para a percepção social, o que acendeu às discussões sobre a neutralidade que a ‘Cloud Dancer’ carrega. A CEO lembra que a Pantone já tinha sido alvo de críticas nos últimos anos devido às suas escolhas, como em 2021, quando a cor do ano foi a combinação ‘ultimate gray + illuminating’ (cinza e amarelo). Embora houvesse uma tentativa em representar a modernidade e o otimismo, essas cores combinadas, segundo Cáren, estão associadas à falta de energia e apatia.
"O cinza, por mais que seja visto como moderno e industrial, não traz energia ao cérebro. Quando combinados, amarelo e cinza evocam essa sensação de perda de vitalidade. Se observarmos filmes, séries ou até mesmo em representações de pessoas com conflitos internos, é comum ver o uso dessas cores. Elas estão vestidas de amarelo e cinza, ou o cenário é baseado nessas tonalidades, refletindo um estado de apatia. Então, essas decisões devem ser mais cuidadosas, porque as cores têm um papel importante na sociedade. Elas não apenas adornam o visual, mas também moldam a percepção do que é valorizado ou ignorado", ressalta.
Abordando o impacto social das cores, Cáren faz uma análise de como a percepção da moda impacta no corpo negro. "Falar sobre cores quentes que realçam a paleta de pele negra é um mito, algo totalmente equivocado. Muitas vezes, acreditamos que cores vibrantes, como laranja e amarelo, ficam bem em peles mais escuras, mas isso nem sempre é verdade. Nem toda pele negra, por mais escura que seja, vai harmonizar com essas cores intensas. Para que essas tonalidades façam sentido para algumas pessoas, é preciso ‘esfriá-las’, ajustando os tons para criar um equilíbrio que favoreça cada tipo de pele”, conta.
A especialista também destaca que o conceito de "vestir-se bem" vai muito além do simples uso das cores da temporada. Ela questiona o que realmente significa “vestir-se bem”, apontando que essa premissa é frequentemente imposta pela sociedade. Para a relações-públicas, as escolhas de vestuário devem ser baseadas na compreensão do próprio corpo e no respeito à diversidade, sem se prender a regras rígidas de padrões estéticos.
Além disso, Cáren observa que tecidos como as capulanas, representativos da cultura africana, não seguem a lógica de cores quentes ou frias de maneira rígida. Esses tecidos apresentam uma imensa diversidade de tonalidades, que vão desde os tons mais suaves e frios até os mais quentes e vibrantes.
“A moda deve ser uma celebração da individualidade, das culturas e da pluralidade de formas de ser e de existir. Embora as tendências de moda, como as escolhas da Pantone, tenham seu valor, elas não podem ser aceitas sem questionamento. Elas precisam ser repensadas à luz da diversidade e do respeito à identidade de cada pessoa. É preciso pensar nas cores como um chamado para a liberdade”, conclui.
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