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quinta-feira, 12 de março de 2015

Rei Tradicional Bantu pela primeira vez no Brasil após a escravidão

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Por José Armando Estrela, texto e fotos
Luanda/Angola – No quadro dos objetivos da Década Internacional dos Afrodescendentes, criada por resolução da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 23 de Dezembro de 2014, sob o lema “Afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”, o coordenador do Brasil do ILABANTU (Instituto Latino Americano de Tradições Afro Bantu), Walmir Damasceno (Taata Katuvanjesi) idealizou a primeira visita de um soberano tradicional Bantu aos diversos Estados brasileiros, para manter contato com a cultura afro-bantu brasileira.
Nesse quadro, a Década Internacional dos Afrodescendentes começou a ser celebrada a 1 de Janeiro deste ano, para um período que se estende ao dia 31 de Dezembro de 2024, segundo as Nações Unidas, data bem próxima às comemorações do bicentenário do FIM da ESCRAVATURA no mundo, que ocorreu no século XIX, no ano de 1830.
Historicamente, como consequência da Escravatura, o Brasil registrou uma triste memória na sua ocupação humana desde o seu descobrimento, sobretudo no que se refere aos povos africanos. Outras nações foram protagonistas de capítulos não menos vergonhosos na exploração destes povos.
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Entre nós e como uma forma de se promover a igualdade racial projetada pelas Nações Unidas, no novo conceito do pensamento Humano, nasceu no Brasil o projeto “Kulembe África Brasil” que se pode estender a outros Estados americanos, principalmente latino-americanas.
Assim, nesta primeira ação promocional do “Kulembe África Brasil”, o ILABANTU, a AFROCOM (Central Organizada de Matriz Africana), a ACBANTU (Associação Nacional Cultural de Preservação do Património Bantu) e o CENARAB, estão a promover a visita de um Soberano Tradicional Bantu ao Brasil, no caso o Rei Ekuikui V, do Reino do Bailundo. Até aqui, todos os contatos mantidos pelos dois Estados no latino-americanos, onde existem diversas aglomerações populacionais negras que se identificam e preservam a cultura africana bantu.
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Pela proximidade e convívio histórico, nesse projeto se vislumbra um novo passo na defesa do desenvolvimento humano e cultural do Brasil e da África. “Kulembe África Brasil” pretende promover todos os anos, durante a Década, ações de intercâmbio cultural para reforçar os laços históricos entre os povos africanos e brasileiros e de outras nações Brasil (por Angola através da Embaixada em Brasília), levaram a marcar a vinda da comitiva do Rei Ekuikui V para o dia 4 DE ABRIL.
Para o Brasil, a visita do Rei do Bailundo vai ser um fato histórico e é aguardada com grande expectativa, por ser a primeira de um soberano Bantu após a escravidão.

As múltiplas razões

É inegável que as marcas da nossa ancestralidade africana estão cada vez mais delineadas no corpo e na alma do nosso povo. A nossa mistura étnica autoriza-nos a nos apresentar no cenário mundial como portadores de cargas genéticas dos continentes africano e europeu em grande escala. Essa mesma mistura que nos faz um gigante, também nos torna lenta na hora de agirmos contra os preconceitos e as violências ainda praticadas entre nós por aqueles que desejam negar ou apagar esta marca.
Sabemos todos que um povo sem ancestrais é um povo sem um referencial, sem uma matriz cultural, sem raiz e sem origem. Por isso, ao não olharmos para esse caminho, impede-se que os vivos possuam um referencial simbólico capaz de uni-los frente às atrocidades inerentes à vida em cativeiro.
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Felizmente, a despeito de tudo isso, a raiz africana não se apagou e podemos dar um motivo para esse fato: os escravos que sobreviveram às agruras escravistas conseguiram de algum modo manter acesas as marcas étnicas trazidas consigo nos porões fétidos dos navios negreiros, de modo que, provavelmente, cada um de nós pode ser geneticamente parente de qualquer afrodescendente latino-americano. Não podemos ignorar que em menos de duzentos anos (menos duas gerações) esses escravos africanos não sejam nossa casta.
Entendemos que a cultura e o conhecimento devem estar onde o povo está e chegar ao maior número possível de pessoas, a fim de que todos possam participar e serem os próprios agentes históricos encarregados de levarem a semente do conhecimento do nosso passado. Os fatos devem cativar o nosso esforço sociocultural e político como parte de sectores que primam pelo bem-estar dos povos. Essa, também é uma forma de premiar aqueles que se batem pela manutenção dos valores culturais bantu na diáspora.
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Por exemplo, no Valongo (Rio de Janeiro) chegavam os escravos novos. Lá eram vendidos os vivos e lá eram enterrados os que morriam. Quanto mais se traficava, mais escravos eram vendidos e mais cadáveres foram sepultados. Pelo porto do Rio de Janeiro, em 1807 entraram menos de 10 mil escravos e em 1822 foram quase 21 mil. Já em 1828 o número subia para 45 mil. Sabemos que pelas características geográficas e por aquilo que estudiosos nos relatam, esse grande número de deportados da África saiu da região central do continente (Angola e Congo), região de predomínio da cultura bantu.
É com este mundo marcado pelo sofrimento de uns e pela perda de valores por parte de outros que “Kulembe África Brasil” pretende conviver, mantendo como laços os elementos culturais ainda prevalecentes nas concentrações populacionais brasileiras e latino-americanas e bem visíveis nos seus rituais diários, no seu convívio e modo de vida, na sua fala e em diversas ilustrações de canto e dança.

Digressão pelo Brasil

O Soberano Armindo Francisco Kalupeteca (Rei Ekuikui V), sua esposa Joaquina Kassueka Tawape, assim como os demais membros que vão constituir a delegação, devem iniciar a digressão na Grande São Paulo por oito Estados brasileiros e terminar no Rio de Janeiro. A comitiva vai percorrer as principais capitais e cidades brasileiras, a exemplo de Brasília (Distrito Federal), Salvador, Ilhéus, Itabuna e Ipiaú (Bahia), Belo Horizonte (Minas Gerais), Recife (Pernambuco), Serra da Barriga (Alagoas), Teresina (Piauí) e Rio de Janeiro.
Porém, antes dessa viagem outras visitas preparatórias ao nosso país foram agendadas por representantes brasileiros, a partir do dia 17 de Fevereiro, altura em que se chegou à Luanda o coordenador do Brasil do Instituto Latino Americano de Tradições Afro Bantu, Walmir Damasceno (Taata Katuvanjesi). Horas depois, Walmir Damasceno seguiu viagem ao Bailundo para formalizar o convite e desde essa data tem seguido os passos que estão a ser dados pela parte angolana convidada pelo ILABANTU para intermediar junto das diversas instituições do país as questões inerentes à ida do Soberano do Bailundo ao Brasil para um período de 20 dias.
“Kulembe África Brasil 2015” será o começo de um projeto que pretende aproximar um pouco mais os povos afro-brasileiros de origem bantu às populações bantu do continente africano, visando, além dos objetivos mensuráveis, promover no imaginário destes povos o sentimento de fraternidade, comunhão e respeito, bem como perceber a inexorável mistura cultural da união África-Brasil.
“Kulembe África Brasil” vai promover por dez anos a miscelânea África – Brasil por meio do intercâmbio sociocultural, fazendo com que os diversos representantes dos povos bantu, fundamentalmente soberanos tradicionais, possam ter contato com os latino-americanos afrodescendentes.
No presente caso, e nesta primeira iniciativa de cultura tradicional afro bantu, a visita do Soberano do Bailundo estende-se aos Estados de São Paulo, Brasília (DF), Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Alagoas e Piauí.
Texto e Fotos de José Armando Estrela da redação Kimwanga-Nsangu – Correspondente de Angola

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