Nota de repúdio e Manifesto de Resistência Contra o Capacitismo

Nota de repúdio e Manifesto de Resistência Contra o Capacitismo

Eu falo como mãe. Falo como avó. Falo como uma mulher que vivencia, apoia e defende a dignidade humana em sua máxima expressão todos os dias.

Minha filha, Aline, é surda profunda. Uma mulher com formação acadêmica, que domina a oralidade e faz uso orgulhoso da LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Ela é a prova viva de que a capacidade, a inteligência e o valor de alguém não são determinados por barreiras físicas ou sensoriais.

Sou avó do Murillo, que tem paralisia cerebral, é cadeirante e possui baixa visão. Sou avó do Pedro Henrique, diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista), TOD (Transtorno Opositor Desafiador), TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Cada um deles é um universo de amor, de direito, de luta e de cidadania.

Ver a minha família e a história de milhões de brasileiros ser desrespeitada em rede nacional é um soco no estômago. No último debate presidencial na TV Globo, o candidato Flávio Bolsonaro utilizou uma expressão profundamente capacitista e preconceituosa, debochando da amputação do presidente Lula decorrente de um acidente de trabalho ao dizer que ele "tira com os nove dedos".

Essa declaração é intolerável e inaceitável.

O termo "nove dedos" usado como ataque político disfarçado de "recurso de retórica" não é apenas uma ofensa pessoal; é a violência do preconceito estrutural. É a reprodução do capacitismo, a discriminação cruel que reduz o valor de um ser humano com base em uma alteração anatômica ou deficiência física. Quando um homem público ridiculariza uma sequela física ou uma limitação corporal, ele valida o preconceito contra a minha filha surda, contra o meu neto cadeirante e contra o meu neto neurodivergente. Ele diz ao país que corpos e mentes com deficiência são inferiores e dignos de escárnio.

A nossa existência não é piada. A nossa luta diária por inclusão, acessibilidade e dignidade não aceita deboche. Nenhuma suposta desculpa protocolar apaga o fato de que a mentalidade preconceituosa foi exposta para o Brasil inteiro.

Exigimos respeito. Exigimos uma política que debata o futuro do país com base em propostas, não no preconceito rasteiro que fere e marginaliza as pessoas com deficiência. Minha família e todas as famílias atípicas deste país merecem ser tratadas com o respeito que a lei e a humanidade exigem.

Chega de capacitismo! Inclusão é direito, dignidade não é negociável.