[COMPORTAMENTO] Ex-participante do Shark Tank Brasil explica porque jovens negros são questionados no trabalho pela “aparência

 Ex-participante do Shark Tank Brasil explica porque jovens negros são questionados no trabalho pela “aparência”

Profissional à frente da Pittaco Consultoria, a comunicóloga Cáren Cruz explica que uma pessoa negra, com cabelo crespo ou com elementos da sua cultura na aparência, pode ter sua competência questionada por códigos que nunca foram pensados para incluí-la


Diante de um mercado de trabalho morno, a corrida por modelos híbridos ou “100% home” tem sido um chamariz para muitos jovens. Segundo o relatório da consultoria Robert Half, divulgado durante o mês de setembro, cerca de 55% dos trabalhadores da GenZ dizem planejar a busca por um novo emprego até o final do ano.


Se de um lado os jovens da Geração Z se sentem esgotados profissionalmente pela pressão das IAs no mercado, ainda segundo a Robert Half, do outro, temas como o salário, oportunidades de crescimento, benefícios, e principalmente, a flexibilidade no ambiente de trabalho, são requisitos cada vez mais buscados por este público. 


Segundo a comunicóloga, investida do Shark Tank Brasil e empresária, Cáren Cruz, a busca por modelos híbridos de trabalho, que se tornaram flexíveis às megarrotinas da GenZ, do trabalho ao lazer, são reflexos que atravessam a identidade dos jovens nativos digitais. “Uma das principais características desse público é o forte senso de identidade, e isso é traduzido desde a busca por empregos que condizem com suas convicções, até as formas de se vestir – código este que também foi transformado à medida que o mercado foi flexibilizando as rotinas de trabalho. Há sempre, implícito, quando falamos da Geração Z, uma busca por valorização da identidade”, comenta. 


Do trabalho à moda: como a Geração Z tem transformado vertentes antigas


A ‘debandada do mercado de trabalho’ não é a única mudança visível para o final do ano, proposta pela geração Z. Disruptivos, a nova geração provocou transformações que vão do trabalho às rotinas de bem-estar, atravessando hábitos, consumos e até mesmo a sua identidade visual. 


Um artigo publicado pela Lands' End Outfitters, no LinkedIn, reforça as mudanças já impostas por esse novo público, principalmente quanto ao outfit corporativo. É o que ressalta a publicação “Dressing Ambition: How Gen Z Is Redefining Work Style”, que coloca esse estilo como uma das tendências que deixou de ser um código rígido por uma escolha estética dos jovens. No entanto, o debate pode ser ainda maior. 


Consultora de imagem plural e CEO da Pittaco Consultoria, Cáren explica que há uma pauta pouco difundida ainda sobre a flexibilização das regras de vestimenta no ambiente de trabalho, e como os modelos “home” proporcionaram uma liberdade que não chega para todos. 


“O trabalho mudou de lugar. A popularidade dos novos modelos de trabalho hoje faz um jovem querer sair de um emprego para o outro, mas a forma como as pessoas são avaliadas também mudou. Numa reunião por vídeo, por exemplo, entram nessa leitura a roupa, o cabelo, os acessórios, a postura e até o espaço da casa que aparece na câmera. Às vezes, a empresa deixa de exigir uma roupa formal, mas continua esperando que todo mundo tenha uma aparência parecida para ser visto como profissional. A regra deixa de estar escrita, só que permanece no olhar de quem avalia. E esse olhar não é neutro. Uma pessoa negra, com cabelo crespo ou com elementos da sua cultura na aparência, pode ter sua competência questionada por códigos que nunca foram pensados para incluí-la”, provoca. 


Nesse cenário, a CEO lança o questionamento: o que essa empresa está chamando de aparência profissional e por quê? Segundo Cáren, há situações em que o ofício pede uma apresentação específica, o que pode ser conversado previamente. Porém o problema é transformar preferências estéticas em medida de competência. 


“Trabalhar de casa ou em ‘modelo híbrido’ deveria abrir espaço para mais conforto e individualidade, sem que a pessoa precise esconder quem é para ser respeitada. E a GenZ sabe disso, e usa muito bem isso a seu favor. Quando a gente observa o todo, vemos que as transformações dessa nova galera não trata exclusivamente do trabalho, mas vem acompanhadas da sua identidade, da sua construção pessoal, da sua vivência; e influencia em diversos aspectos da sua vida, do vestir ao trabalho”, conclui Cáren.