Monja Coen participa de Gira de Exu no Instituto CEU Estrela Guia

 Monja Coen participa de Gira de Exu no Instituto CEU Estrela Guia


Na noite de sábado, 31 de janeiro, o Instituto CEU Estrela Guia foi palco de uma cena rara até para os que já se acostumaram a ver o improvável acontecer. Em meio à Gira de Exu e Pomba-Gira, marcada por canto, palavra firme e corpo em movimento, o silêncio também encontrou espaço. Veio conduzido pela serenidade da Monja Coen Roshi, em sua primeira participação em uma gira dessa natureza.

Diante de centenas de pessoas que lotaram o espaço, a Monja guiou o público em uma meditação coletiva. Um convite ao recolhimento em um ambiente historicamente atravessado por estigmas e preconceitos. O resultado foi imediato: silêncio atento, respiração compartilhada, presença.

Ao seu lado estavam sua filha biológica, Fábia, o genro Nilo e o Monge Ryozan, seu discípulo. A presença familiar e afetiva reforçou o tom da noite: menos cerimônia, mais encontro.

Coube à Mãe Kelly conduzir um dos momentos mais pedagógicos da gira. Com voz doce e firme, falou sobre Exu e Pomba-Gira para além das caricaturas que insistem em sobreviver no imaginário popular. Desmitificou, nomeou e reposicionou. E foi além do plano espiritual. Lembrou que o trabalho ali não se encerra no rito: falou do compromisso social do Instituto, das cozinhas solidárias, do cuidado cotidiano com quem vive à margem e do chamamento público que convoca não apenas médiuns, mas toda a sociedade.



Pai Denisson assumiu a condução com a força do canto e das palavras entoadas como quem finca os pés no chão. Entre um ponto e outro, trouxe uma reflexão que silenciou o público: a solidão. Falou da solidão que atravessa multidões, da solidão dentro de casas cheias, da solidão de quem perdeu vínculos, sentido ou escuta — uma das dores mais recorrentes do nosso tempo.

Foi também dele uma das provocações mais comentadas da noite. Em tom direto, mas sem confronto, afirmou que chegou a hora de o Zen Budismo e a Umbanda ocuparem, juntos, o Réveillon da Avenida Paulista. Lembrou que o espaço público já foi celebrado por evangélicos e católicos, e questionou, sob aplausos, por que tradições como a Umbanda e o Zen ainda permanecem à margem dessas grandes manifestações simbólicas da cidade. A fala, longe de reivindicação sectária, soou como convite à pluralidade na ocupação de espaços antes destinados à uma parcela da sociedade.

Com bom humor, Pai Denisson arrancou risos da plateia ao perguntar à Monja Coen se ela gostaria de se casar novamente. A cena, longe de qualquer irreverência vazia, humanizou o encontro.

A noite terminou com a sensação de que algo importante havia acontecido. Não um gesto simbólico apenas para fotografia, nem uma concessão entre crenças. Mas um encontro legítimo, onde o silêncio encontrou o movimento da gira, o social encontrou o espiritual e o sagrado mostrou que, quando é verdadeiro, não separa — ocupa, dialoga e aproxima.


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