A Tituba de Flávia Freitas, na nova montagem de As Bruxas de Salém
Com direção de Renato Carrera, “As Bruxas de Salém”, de Arthur Miller, estreia no dia 4 de setembro de 2025, no Teatro Casa Grande, com elenco composto por 15 atores e atrizes, entre eles Carmo Dalla Vecchia, Vannessa Gerbelli e Flávia Freitas. O texto de Miller não é apenas um relato histórico, mas também uma crítica social e política que ressoa com a experiência humana contemporânea, questiona a natureza da verdade, a importância da integridade individual, os perigos da intolerância e da manipulação.
Nesta obra, que se tornou um clássico do teatro moderno, a personagem Tituba assume um papel decisivo. Escravizada, estrangeira e negra, ela é a primeira acusada de feitiçaria na comunidade puritana de Salém. Sob pressão e ameaças, confessa práticas de bruxaria e delata outros nomes, instaurando a engrenagem persecutória que levaria dezenas à prisão e à morte.
A construção de Miller dialoga com a Tituba histórica, mencionada nos registros de 1692 como uma mulher de origem caribenha ou indígena. Também ela foi coagida a confessar e se tornou peça-chave para legitimar o tribunal das bruxas.
No palco, sua figura simboliza a vulnerabilidade dos mais marginalizados, sempre os primeiros a carregar o peso da histeria coletiva. Um retrato que ressoa até hoje, em sociedades onde o racismo e a exclusão continuam escolhendo seus alvos preferenciais.
A seguir a atriz Flávia Freitas, intérprete de Tituba na encenação de Renato Carrera, comenta a respeito da importância desta personagem os dias de hoje.
- Nos conte a respeito da personagem Tituba, primeiramente a partir da perspectiva de Arthur Miller.
“Na versão de Arthur Miller, Tituba se desenvolve a partir de um olhar colonial. Ela é a mulher negra, escravizada, acusada de bruxaria e usada na dramaturgia quase como catalisadora da tragédia que se instala em Salém. Aparece como uma figura à margem, atravessada pelo racismo e refletindo um apagamento histórico das narrativas de mulheres negras. Absurdamente temida pelo seu saber, que é ancestral, Tituba é trabalhada como instrumento e não como sujeito.”
- Como Tituba está tratada nesta montagem?
“Com tudo que ela merece: complexidade, ancestralidade, escuta, liberdade. A Tituba que estamos trazendo à cena é protagonista da própria história. A gente parte do texto original, mas com a consciência que temos em 2025. O diretor Renato Carrera desde o início me orientou e amparou nessa construção, que também é coletiva, pensada e trocada com o elenco. No prefácio do livro “Eu, Tituba”, da Maryse Condé, Conceição Evaristo traça um importante paralelo entre as duas narrativas e absorver suas palavras foi fundamental neste processo de reescrita da personagem. Tituba louva a liberdade, celebra o feminino com corpo e natureza, até como gesto político.”
- Quais os desafios para interpretar essa personagem?
“O principal desafio é não cair em clichês e caricaturas, nós temos uma certa fidelidade ao texto, não no sentido de aceitá-lo passivamente, mas de olhar criticamente pra ele. O pulo do gato, para mim, está justamente aí: na forma como a gente escolhe observar essa obra. É preciso ler e construir Tituba rompendo com vestígios do que não nos serve atualmente, o que exige cuidado. Outro ponto, são as muitas camadas em que ela transitava, as relações com outros personagens, tudo isso muito tensionado por um instinto de preservação. Cada fala dela é calculada. Ela é sobrevivência pura. E colocar o corpo negro em cena com autonomia e reverberando esses elementos, também é desafiador e toda a equipe tem auxiliado bastante nessas discussões.”
- Como Tituba dialoga com os dias de hoje? O que ela tem a dizer?
“Tituba luta pela vida, ama, sonha, protege e sobrevive. Isso é um manifesto. Existe um desejo latente nesta dramaturgia de controlar os corpos e espíritos das mulheres. Isso não é passado, é presente. Tituba, como mulher negra, foi a primeira a ser acusada e a primeira a “confessar”. E ela confessa, por entender o sistema. Ela não se entrega, ela se protege. O que expõe também um dos braços da necropolítica, que é o racismo religioso. Em pleno 2025, as religiões de matriz africana seguem sendo demonizadas e as mulheres negras ainda são alvo de perseguições. A caça às bruxas continua viva. E Tituba diz que a liberdade se vive em roda. Que se dança na mata, que se canta no escuro, a que cura. Quando ela vai com as meninas para floresta, ela não está apenas evocando espíritos, ela lembra o mundo do que é ser mulher. E isso é perigoso. Ela se torna dona de si, traça os passos do próprio destino, dentro deste recorte da época é claro. Mas ela segue resistindo e abrindo caminho para outras passarem, até hoje.”
- Me conte a respeito do Coletivo Aziza que você fundou em 2023.
“O Coletivo Teatral Aziza é vento e encruzilhada viva. Ele surge em São Gonçalo, município do Rio de Janeiro, e é formado majoritariamente por mulheres negras e periféricas que entendem o palco como lugar de luta. Trabalhamos com afeto, poesia e política. Quem chega, deixa um pouco de si e leva muito do que é vivido em grupo. Nós utilizamos a subversão como principal ferramenta. Atualmente estamos desenvolvendo o espetáculo Luz na Encruzilhada, que nasce dessa travessia entre memória, território e religiosidade. Também temos investido nas cenas curtas como uma linguagem de pesquisa.”
Sobre a temporada de “As Bruxas de Salém”
As Bruxas de Salém
Autor: Arthur Miller
Direção: Renato Carrera
Elenco (em ordem alfabética): Bela Carias (Betty Páris), Carmo Dalla Vecchia (Reverendo Páris), Clarisse Deussane (Mercy Lewis), Daniel Braga (Ezekiel Cheever, Hathorne e Hopkins), Elisa Pinheiro (Abigail Williams), Fernanda Sal (Mary Warren), Flávia Freitas (Tituba), Isabel Pacheco (Sra. Ana Putnam), Izabella Almeida (Susana Walcott), José Karini (Reverendo Hale), Lindomar Francisco (Guiles Corey), Marcel Giubilei (John Proctor), Maria Adélia (Rebecca Nurse), Patrícia Pinho (Elizabeth Proctor) e Vannessa Gerbelli (Juíza Danforth).
Local: Teatro Casa Grande. Av. Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon, Rio de Janeiro.
Temporada: 4 de setembro até 05 de outubro. Quinta à sábado às 20h e domingo às 18h.
Ingressos à venda na bilheteria do teatro ou antecipadamente pelo Eventim:
https://www.eventim.com.br/
Duração: 150 minutos
Classificação: 14 anos
O Teatro Casa Grande dispõe de acessibilidade completa.

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